ANÁLISE: “CHÁVEZ, CELAC E A OPORTUNIDADE PERDIDA PELA COSTA RICA”.

Por Andrés Mora Ramírez*

Traduzido por: Mariana Yante

Em 14 de dezembro de 1994, Hugo Chávez, então Tenente-coronel de Paraquedistas do exército venezuelano e soldado insurreto recém-indultado, visitou Cuba pela primeira vez, no que seria o início de uma relação tão profunda e inovadora em seu escopo integracionista, como não se registrava nas últimas décadas entre duas nações latino-americanas, já irmanadas per si por mais de uma razão histórica. Segundo se recorda, Chávez chegou a Havana em um voo comercial e, para sua surpresa, foi recebido no Aeroporto Internacional José Martí pelo próprio Fidel Castro. O historiador cubano Eusebio Leal disse daquele encontro: “Fidel descobriu em Chávez um diamante que alcançaria os níveis mais altos no discurso político, revolucionário e internacionalista. Creio que o viu por inteiro com claridade, nitidez e visão, que alcança o tempo futuro; foi Fidel quem teve uma simpatia infinita por ele”.

Nesse mesmo dia, Chávez proferiu um discurso na Aula Magna da Universidad de La Habana, cujo conteúdo e visão estratégica deveriam ser estudados com maior interesse em nossas academias e organizações políticas, na medida em que, por meio dessa intervenção, delineou o programa ideológico do que, anos depois, converteu-se na Revolução Bolivariana e, além disso, anunciou o projeto de integração continental que firmou as bases da atual Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC).

Chávez se referiu ao que considerava “um projeto estratégico continental de longo prazo”, que, em um horizonte de vinte a quarenta anos, permitiria o desenvolvimento de um modelo econômico e político alternativo, soberano e complementar para a região. O que aspirava era a configurar “uma associação de Estados latino-americanos (…) que foi o sonho original de nossos libertadores”, à maneira de “um congresso ou liga permanente onde discutiríamos os latino-americanos sobre nossa tragédia e sobre nosso destino”; um projeto, que, em definitivo, poria fim à fragmentação de nossos povos da qual têm se valido os impérios durante duzentos anos, e que faria do século XXI “o século da esperança e da ressurreição do sonho bolivariano, do sonho de Martí”.

Em 2011, quinze anos depois daquelas palavras, e graças a um compromisso e uma paixão que consumiu a vida do líder venezuelano, finalmente foi criada a CELAC: um organismo chamado a impulsionar o latinoamericanismo no contexto complexo da nova integração regional e dos novos equilíbrios de forças políticas, configurados a partir da ascensão dos governos nacional-populares e da crise do capitalismo neoliberal. Buscava-se com isso, ademais, libertar a América Latina das âncoras impostas pelos Estados Unidos para perpetuar sua dominação por meio da ideologia do pan-americanismo, como eixo constitutivo da política externa, e de um sistema jurídico-político aliado a esse propósito, e que se articulou em torno da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Nesse contexto, a Costa Rica assumiu, em janeiro de 2014, a presidência pro tempore da CELAC, em meio à incerteza de um processo eleitoral que, ao fim e ao cabo, pôs fim a oito anos de governos neoliberais e, desde o mês de maio, abriu as portas para um governo que insinuava posições progressistas e, aparentemente, muito mais alinhadas às teses da integração latino-americana, que têm se consolidando, por exemplo, em iniciativas como a ALBA e a UNASUL.

No entanto, ao fim de quase doze meses frente à CELAC, resulta difícil realizar um inventário das ações concretas que evidenciem uma liderança diplomática dos governos costarriquenhos – do Partido Liberación Nacional, primeiramente, e do Partido Acción Ciudadana, posteriormente – e um compromisso real de impulsionar a consolidação do organismo latino-americanista. Em parte, devido ao fato de que a chancelaria não fez uma boa leitura da conjuntura regional e não logrou definir uma agenda que se sintonizasse com os interesses e problemáticas de seus pares; em parte, em razão do isolamento ao que nos conduziram as elites políticas e econômicas neoliberais durante os últimos dez anos, e que nos impede de dialogar com governos e movimentos cujos processos políticos se situam já no umbral do pós-neoliberalismo. Mais grave ainda, a Diplomacia costarriquense tem sido incapaz de contrariar, em nível local, o discurso opositor da imprensa de direita e de alguns setores políticos vinculados ao exílio cubano e venezuelano, que questionam a organização da cúpula da CELAC em San José em janeiro de 2015, e a presença de delegações de Cuba e da Venezuela no evento.

A Costa Rica teve todo um ano para avança em direção à concreção do sonho de integração da CELAC, mas não fomos capazes de fazê-lo. Simplesmente nossos governos não estiveram à altura do tempo histórico e de suas exigências, pois sua mentalidade segue presa às ataduras do passado e aos temores escravizadores de classe que os imobilizam.

Oxalá o Equador, que assumirá a presidência a partir do próximo ano, possa revitalizar a CELAC e dar-lhe o protagonismo merecido e necessário a este empenho para a unidade e para a solidariedade “nossamericana”.

*Andrés Mora Ramírez é pesquisador do Instituto de Estudios Latinoamericanos e do Centro de Investigación y Docencia en Educación, da Universidad Nacional de Costa Rica.

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