ANÁLISE: OBAMA, A DECADÊNCIA IMPERIAL E A CÚPULA DAS AMÉRICAS

Por Andrés Mora Ramírez*

 

Tradução: Wenerton Soares

Revisão: Mariana Yante

 

Barack Obama está em uma corrida aberta contra o tempo, contra seu destino e contra a história. Seu segundo mandato já se encontra na fase final, e a mudança prometida ao som de yes, we can segue sendo um objeto de estudo para a comunicação política, porém não uma realidade constatável, que preencha as enormes expectativas que despertou. Como bem falou o colunista colombiano Héctor Abad Falcione, por ocasião da derrota republicana nas eleições de meio mandato, “as esperanças desmedidas e as grandes ilusões (todos sonhamos com que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos fosse mudar o mundo) costumam terminar em grandes decepções”. O mandatário que hoje caminha pelos corredores da Casa Branca há de levar sobre seus ombros uma carga pesada: a de não reconhecer, no espelho da realidade continental e global, os cenários que sua refinada retórica e sua equipe de experts políticos e de marketing fizeram-no propagar em seus discursos e declarações públicos.

Longe de qualquer otimismo sobre a liderança Americana, o certo é que os Estados Unidos se encontram em um autêntico pântano, no que se refere à política externa, fato que se assinala, por exemplo, na debilitação de sua hegemonia diante das reconfigurações do mundo multipolar, no retorno das fórmulas e estratagemas da geopolítica “pura e simples” e, evidentemente, na abertura de novas frentes de conflito no Norte da África, no Oriente Médio, na Ucrânia e até na Venezuela, nos quais não se vislumbram – por ora – soluções favoráveis a Washington.

Hoje, somente a força bruta ou a conspiração suavizada com cínicas apelações à democracia liberal parecem ser os únicos recursos dos quais dispõe o imperialismo. Nesse clima de decadência, o presidente estadunidense ganha ânimo para aventuras cujo desenlace poderia ser trágico, mais uma vez, para nossa América. Em concreto, nos referimos ao que parece ser uma espécie de “operação limpeza“, que se radicalizou a partir do esfriamento das tensões diplomáticas com Cuba – decisão que desperta tanto ilusões, como suspeitas fundadas – e que tem como objetivos a Venezuela, a Argentina e o Brasil: pilares da nova integração regional, dos novos equilíbrios de forças, e em definitivo, países estratégicos por seu potencial econômico e seus recursos energéticos.

Uma combinação de ações de guerra econômica e midiática, de conflitos institucionais entre os poderes republicanos, e do assédio diplomático permanente se enquadra nessa descarada negociação entre o governo de Obama e a direita criola, para “dobrar braços” a vários governos sul-americanos. Ainda que estes empenhos desestabilizadores tenham sido contidos, em alguns casos, e frustrados, em outros, o horizonte deste conjunto de manobras aponta para a Cúpula das Américas 2015, que se celebrará no Panamá, e onde as autoridades estadunidenses apostam encontrar um foro favorável às suas eternas aspirações de controle, sob a égide ideológica do panamericanismo. Alguns analistas até mesmo afirmam que este encontro poderia ser a última oportunidade diplomática de manter com vida as instituições pan-americanas, que têm sido ponta de lança da política imperial na América Latina, porém gradualmente perdem terreno para a UNASUL e a CELAC.

Na Cúpula de Porto da Espanha, em 2009, o presidente venezuelano Hugo Chávez ofereceu a Obama um exemplar do livro As veias abertas da América Latina, a obra clássica do uruguaio Eduardo Galeano. Esse presente, tão audaz quanto oportuno, tinha um propósito bem-intencionado: apelar à integridade e à consciência de um homem culto, que inclusive havia sido crítico do intervencionismo militar do seu país, para que não se repetisse sob seu mandato a tragédia do imperialismo na nossa América. Não sabemos se Obama leu ou não esse livro. Porém, se o fez, hoje vai ficando claro que a sua leitura foi, uma vez mais, a do opressor que se deleita em seu poder e sua dominação, e não a do oprimido que descobre a necessidade impostergável da libertação.

 

 

*Andrés Mora Ramírez é Pesquisador do Instituto de Estudios Latinoamericanos e do Centro de Investigación y Docencia en Educación, da Universidad Nacional de Costa Rica.

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