ANÁLISE: O utilitarismo e o afeto na construção da violência nos jovens em El Salvador

Por Amaral Palevi Gómez Arévalo*

Revisão: Mariana Yante

 

Em nossa tarefa de compreender os fatos que contribuem para que jovens se integrem aos grupos delinquenciais denominados maras, nesta colaboração vamos abordar a temática do utilitarismo e do afeto, com suas conexões na construção da violência entre os jovens em El Salvador.

Para começar a falar sobre utilitarismo, temos que mencionar que “[…] la población joven, […] registra mayores niveles de subutilización laboral (desempleo-subempleo)”[1] (PROGRAMA DE LAS NACIONES UNIDAS PARA EL DESARROLLO, 2008, p. 252), e que, no ano de 2012, o desemprego alcançava 10.6% das pessoas entre 16 e 29 anos de idade (DIRECCIÓN GENERAL DE ESTADÍSTICAS Y CENSOS, 2013, p. 3).

Esse quadro se vê agravado quando os jovens são procedentes dos assentamentos urbanos precários (AUP), devido às “características sociales de las personas residentes en los AUP: la baja empleabilidad y la deficiente calidad de inserción en los mercados de trabajo”[2] (EL SALVADOR, 2010, p. 84). Aliado a esse fator, 75% de jovens de 18 a 24 anos “[…] carece(n) de la acreditación mínima para continuar con estudios superiores, por lo que, según los criterios definidos, también tendría(n) escasas oportunidades de movilidad social ascendente” (EL SALVADOR, 2010, p. 84)[3]. O cenário resulta em poucas oportunidades de trabalho para um jovem morador dos assentamentos urbanos precários.

Esse fato obriga a população jovem a obter seus meios de vida através da informalidade, do subemprego ou da migração (PROGRAMA DE LAS NACIONES UNIDAS PARA EL DESARROLLO, 2008, p. 251). Como último recurso para sobreviver, está sua vinculação com as maras, como uma forma utilitária de satisfazer suas necessidades materiais de existência.

As maras têm gerado, em não poucas vezes, a admiração das crianças das comunidades marginais; ao verem que os processos formais de progresso social lhes são estranhos, veem nas maras “[…] una oportunidad de ser respetados y de salir adelante. De esta manera, el uso de la violencia y el ingreso a las pandillas se convierte en una estrategia de adaptación o sobrevivencia”[4] (INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD, 2011, p. 91).

As formas de obter recursos econômicos das maras podem ser classificadas em três grandes áreas: (1) extorsões anônimas planejadas em face dos habitantes do interior do país e/ou salvadorenhos residentes no exterior; (2) delinquência comum, que inclui roubo, furto e vandalismo com excesso de violência e (3) a venda e a distribuição de drogas ilegais.

Além das condições estruturais adversas que permitem que uma pessoa aceda às maras –  como a falta de recursos econômicos necessários para uma vida digna, segundo os cânones ocidentais –, devemos reconhecer que, mais do que pobreza, falamos das crescentes desigualdades de renda e de oportunidades para todos os jovens. Se projetarmos uma sociedade do consumo ilimitado, na qual o esforço, a solidariedade, a tolerância, a aceitação da diferença, a perseverança, a firmeza, a esperança, entre outros valores sociais que vêm perdendo seu significado textual e simbólico na sociedade, têm sido substituídos pelo acomodamento, pela preguiça, pela desesperança e pela decepção com a vida, temos como resultado uma concepção antropológica de ser humano que quer ter em vez de ser.

Outra questão que influi para que jovens se integrem às maras é o aspecto afetivo. Muitos dos que integram as maras o fazem devido a uma necessidade afetiva, na medida em que, em seus grupos familiares, não têm encontrado o suficiente para suas necessidades e interesses. Famílias disfuncionais, com histórias internas de uso da violência, de abandono, de negligência por parte dos pais ou responsáveis, às vezes atreladas à mobilidade constante do grupo familiar e todo o desgaste social que implica; tudo isso, conjunta ou isoladamente, gera estímulos afetivos negativos. Assim, “la experiencia histórica familiar de éstos jóvenes ha hecho que su familia no sea el lugar donde pueden satisfacer sus relaciones económicas, afectivas o de seguridad”[5] (CARRANZA, 2005, p. 194), e, como falamos no janeiro passado, a escola e o contexto comunitário de vida tampouco proporcionam estímulos afetivos positivos.

Procura-se completar a necessidade afetiva dos jovens de diferentes formas, e uma de elas é o ingresso nas maras, onde a falta de modelos positivos, […] la pandilla […] [es] una especie de familia sustituta que satisface las necesidades afectivas del joven que provee de identidad y dignidad a muchachos marginados y con poca probabilidad de ascender en el orden social convencional”[6] (PROGRAMA DE LAS NACIONES UNIDAS PARA EL DESARROLLO, 2009, p. 107). Nesse sentido, a “mara” se converte em uma forma de vida, criando-se uma comunidade emotiva que brinda uma identidade e sentido imediato à vida de seus membros –  já que os integrantes das maras não pensam nas perspectivas do futuro, devido a que, em qualquer momento suas vidas, podem terminar (CARRANZA, 2005, p. 194).

Nessa comunidade emotiva ou grupo social específico, a partir do ponto de vista que se deseja interpretar, cria-se uma forma de consenso quanto aos “valores” no interior do grupo, entre os quais se podem mencionar: a confiança total ao grupo quanto à pessoa, a obediência a uma serie de normas, as restrições e regras internas, a decisão para que se mantenha dentro da “mara”, a aprendizagem para a nova situação de vida que se empreenderá, a identificação do grupo por meio de tatuagens, o cumprimento efetivo das ordens  (CARRANZA, 2005, p. 197-198). Estes “valores” compartilhados criam vínculos de unificação no grupo. O prejudicial destes “valores” reside em que, ao serem praticados e exercidos, são contrários a uma sociedade que aspira a uma cultura de paz.

 

*Amaral Palevi Gómez Arévalo é docente de Ensino Superior, Doutor em Estudos Internacionais em Paz, Conflitos e Desenvolvimento (Universitat Jaume I), Graduado em Ciências da Educação (Universidad de El Salvador). Gestor de projetos de desenvolvimento comunitário com jovens, homens e atenção à população LGBT. Promotor de cultura de paz, a partir de meios audiovisuais.

 

***

REFERÊNCIAS

CARRANZA, M. Detención o muerte: hacia dónde van los niños “pandilleros” de El Salvador. In: DOWDNEY, L. (Org.). Ni guerra ni paz: comparaciones internacionales de niños y jóvenes en violencia armada organizada. Rio de Janeiro: COAV, 2005. p. 187-205.

Dirección general de estadísticas y censos. Principales indicadores sobre Adolescentes y Jóvenes en El Salvador. San Salvador: UNFPA, 2013a.

EL SALVADOR.  Ministerio de Economía. Mapa de pobreza urbana y exclusión social El Salvador: conceptos y metodología. San Salvador: PNUD, FLACSO, MINEC, 2010. v. 1.

INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD. Política nacional de juventud: 2011-2024. San Salvador: INJUVE, 2011.

ORGANIZACIÓN DE LAS NACIONES UNIDAS. Guía para la prevención con jóvenes: hacia políticas de cohesión social y seguridad ciudadana. Santiago de Chile: ONU, 2011.

Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo. Informe sobre Desarrollo Humano El Salvador 2007-2008: el empleo en uno de los pueblos más trabajadores del mundo. San Salvador: PNUD, 2008.

______. Informe sobre Desarrollo Humano para América Central  2009-2010: Abrir espacios a la seguridad ciudadana y el desarrollo humano. Bogotá: D’vinni, 2009.

 

*** NOTAS:

[1] Tradução livre: “[…] a população jovem […] registra maiores níveis de subutilização laboral (desemprego-subemprego)”.

[2][2] Tradução livre: “características sociais das pessoas residentes nos AUP: a baixa empregabilidade e a deficiente qualidade de inserção nos mercados de trabalho”.

[3] Tradução livre: “[…] carece(m) da acreditação mínima para dar continuidade aos estudos superiores, razão pela qual, segundo os critérios definidos, também teriam escassas oportunidades de mobilidade social ascendente”.

[4] Tradução livre:[…] uma oportunidade de serem respeitados e de melhorarem de vida. “Dessa maneira, o uso da violência e o ingresso nas gangues se convertem em uma estratégia de adaptação ou de sobrevivência”.

[5] Tradução livre: “a experiência histórica familiar desses jovens tem feito com que suas famílias não sejam o lugar onde podem satisfazer suas relações econômicas, afetivas ou de segurança”.

[6] Tradução livre: “[…] a gangue […] [é] uma espécie de família substituta que satisfaz as necessidades afetivas do jovem, na medida em que provém de identidade e de dignidade garotos marginalizados e com pouca probabilidade de ascender na ordem social convencional”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s