Análise: A SEGURANÇA E A CONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA NOS JOVENS EM EL SALVADOR

Por Amaral Palevi Gómez Arévalo*

Revisão por: Mariana Yante

Os jovens se integram à violência sendo, em um primeiro momento, vítimas desta. Assim, “la violencia se aprende, en parte, padeciéndola; cuando en la casa, en la escuela, en la cancha, en el parque, en la calle, en el autobús, en la televisión, en la discoteca o en cualquier lugar público, se observan actos violentos a diario[1]” (PICARDO, 2008: 313). Para exemplificar as palavras de Picardo, os dados da Encuesta Nacional de Jóvenes demonstram que “19.1% declara haber atestiguado riñas de maras y pandillas, el 8.1% haber visto violaciones u otro tipo de delito sexual y un 3% asegura que en su colonia, barrio o comunidad existe venta de armas[2]” (INSTITUTO UNIVERSITARIO DE OPINIÓN PÚBLICA, 2008, p. 23). Estes indicadores devem chamar-nos à atenção sobre o contexto permeado de violência que ronda a vida dos jovens, e que se converte em parte de suas vidas, na medida em que eles se tornam testemunhas diretas das diferentes formas de manifestação de crimes, violências e mortes.

Ao penetrar um pouco mais no contexto de violência no qual os jovens se desenvolvem, verificamos que estes identificam a família como um ambiente importante, haja vista que 49.7% da integração dos jovens às maras dá-se quando, em seu âmbito, existem disfunções nos papeis familiares (INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD, 2011, p. 94). Conquanto uma análise sobre tais disfunções da família em El Salvador não possa ser realizada nesta colaboração mensal em razão da extensão do tema, é necessário fazer-se referência à mudança estrutural das famílias salvadorenhas nos últimos anos. Por uma parte, é importante mencionar o aumento das mães solteiras chefes de família, bem como as famílias transnacionais que se têm constituído nos últimos anos em detrimento da família nuclear.

Da ideia de família nuclear emerge o conceito de família monoparental, a qual compreende um dos pais, na maioria dos casos a mãe, que assume a responsabilidade na tutela dos(as) filhos(as). Tal situação muitas vezes se deve ao modelo machista de “indiferencia frente a todo aquello que no se relaciona claramente con su imagen de ‘macho[3]” (MARTÍN-BARÓ, 2012, p. 166), promovendo nos homens o pouco desenvolvimento dos valores de cuidado em seu núcleo familiar, tendo como resultado, em muitas oportunidades, o exercício da violência, a indiferença às relações familiares, a procura de novos parceiros sexuais, o consumo de bebidas alcoólicas em excesso, entre algumas ações que conduzem à ruptura de núcleos familiares.

Devido à migração crescente, está-se caminhando para um modelo de família que, ao mesmo tempo, é transnacional e extenso, dado que inclui a um ou a ambos os pais que residem fora do país, dando o aporte econômico, e aos avós ou tios como figuras paternas físicas, proporcionando os estímulos afetivos e socializadores às crianças, aos adolescentes e aos jovens.

O que se tem chamado de “crise da família”, em essência, são as mudanças e as dificuldades que se apresentam no momento atual para cumprir com as funções socializadoras, afetivas, comunicacionais e econômicas das crianças, adolescentes e jovens, os quais, ao residir nos contextos marginais, recebem com maior evidência os estímulos negativos e violentos que os positivos.

A aproximação cotidiana da violência se realiza a partir de um processo de naturalização desta. Se na casa, principal referencial afetivo, apresentam-se atos de violência – como maus-tratos, agressão sexual ou violência física de forma direta entre os seus membros –, somados ao resultado da violência estrutural da falta de emprego digno, que não permite aos pais dar todo o necessário para a manutenção do lar, ou que, devido à migração, os vínculos afetivos que se devem construir no interior da família não cheguem a se concretizar… o resultado é uma população jovem com alto risco de integrar os grupos delinquenciais como forma de escapar da violência que é exercida nas suas famílias, para exercer violência sobre outros.  Criam-se, nesse sentido, as violências juvenis como relações sociais (in)comunicacionais:

Los jóvenes no nacen violentos. Van aprendiendo a ejercer violencias. En los contextos en que nacen y, van siendo sometidos a condiciones de vida que permiten que sus pulsiones se expresen más hacia la violencia que hacia la construcción colectiva de estilos de relaciones humanizadas y solidarias. Las violencias no son individuales o solitarias, sino una expresión colectiva, de un conjunto de sujetos que vinculan intereses, expectativas, deseos[4] (ORGANIZACIÓN DE LAS NACIONES UNIDAS, 2011, p.  26-27).

 

Existe uma necessidade de proteção (INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD, 2011, p. 128) nos jovens que não é satisfeita pelos grupos familiares. Depois, na escola como segundo referencial de socialização, tem-se que “las condiciones del contexto escolar favorecen el desarrollo de conductas de violencia[5]” (INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD,  2011, p. 92), desde a filosofia educativa da exclusão até práticas discriminatórias no interior desta  (GÓMEZ ARÉVALO, 2013). Estes fatos, ao conjugarem-se com a violência homicida do âmbito comunitário e local, são a porta de entrada para muitos jovens cometerem atos violentos que marcarão o resto de suas vidas.

Em um terceiro momento, os espaços de contingência da violência nos jovens estão relacionados ao contexto social positivo, no qual os jovens “no confían ni valoran el apoyo social que pueda proporcionarles la red social (vecinos, líderes religiosos, amigos, etc.)[6]” (INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD, 2011a, p. 91).

Concluindo, ao não encontrar um espaço para satisfazer a necessidade de segurança na família, na escola e nos espaços comunitários positivos, os grupos juvenis organizados em torno da violência, “as maras”, convertem-se em espaços sociais que oferecem segurança aos jovens excluídos.

*Amaral Palevi Gómez Arevalo é docente de Ensino Superior, Doutor em Estudos Internacionais em Paz, Conflitos e Desenvolvimento (Universitat Jaume I), Graduado em Ciências da Educação (Universidad de El Salvador). Gestor de projetos de desenvolvimento comunitário com jovens, homens e atenção à população LGBT. Promotor de cultura de paz, a partir de meios audiovisuais.

 

 

REFERÊNCIAS

INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD. Política nacional de juventud: 2011-2024. San Salvador: INJUVE, 2011.

INSTITUTO UNIVERSITARIO DE OPINIÓN PÚBLICA (Iudop). Encuesta Nacional de Juventud: Proyecto Sembrando Futuro. Niñez y juventud sin violencia, desde la participación ciudadana y los derechos humanos, San Salvador: UCA, 2008.

GÓMEZ Arévalo, A. P. Educación para la Paz en América Latina: genealogía y propuesta para el sistema educativo de El Salvador, Castellón: Universitat Jaume I, 2013.

Martín-Baró, I. Acción e ideología: Psicología social desde Centroamérica. San Salvador: UCA Editores, 2012.

PICARDO, Ó. La niñez y juventud en Centroamérica: el impacto de las migraciones y la violencia. In: RIVAS VILLATORO, F. A. (Org.). El Estado de la Educación en América Central: 2000-2008. San Salvador: Imprenta Criterio, 2008.  p. 285-327.

ORGANIZACIÓN DE LAS NACIONES UNIDAS. Guía para la prevención con jóvenes: hacia políticas de cohesión social y seguridad ciudadana. Santiago de Chile: ONU, 2011.

[1] Tradução livre: “a violência é aprendida, em parte, padecendo-se dela; quando, na casa, na escola, na quadra, no parte, na rua, no ônibus, na televisão, na discoteca ou em qualquer outro lugar público, observam-se atos violentos diariamente”.

[2] Tradução livre: “19,1% declaram haver testemunhado rinhas de ‘maras’ e de gangues, 8,1% haver visto estupros ou outro tipo de violência sexual, e 3% asseguram que em sua colônia, bairro ou comunidade existe venda de armas”.

[3] Tradução livre: “indiferença em face a todo aquilo que não se relaciona à sua imagem de ‘macho’”.

[4] Tradução livre: “Os jovens não nascem violentos. Vão aprendendo a exercer violências. Nos contextos e quem nascem e, não sendo submetidos a condições de vida que permitem que suas pulsões se expressem mais em direção à violência que no sentido da construção coletiva de estilos de relações humanizadas e solidárias. As violências não são individuais ou solitárias, mas uma expressão coletiva de um conjunto de sujeitos que se ligam a interesses, expectativas, desejos”.

[5] Tradução livre: “as condições do contexto escolar favorecem o desenvolvimento de condutas de violência”.

[6] Tradução livre: “não confiam, nem dão valor ao apoio social que possam proporcionar-lhes as redes sociais (vizinhos, líderes religiosos, amigos etc.)”.

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