ANÁLISE: Romero e os Mártires do Povo

Andrés Mora Ramírez*

Tradução por Mariana Yante

 

A história de El Salvador, como a de outros países centro-americanos, é uma história manchada com o sangue e com o sofrimento dos inocentes, notadamente dos mais pobres, dos excluídos e dos condenados da terra. O século XX foi especialmente doloroso para um povo que, diversas vezes, viu frustradas suas esperanças e lutas pela libertação em meio a crimes espantosos e à impunidade daqueles que detinham o poder. Um de seus mais lúcidos e comprometidos poetas, Roque Dalton, soube levar aos versos essa tragédia: “Ser salvadorenho é ser meio morto/ isso que se move/ é a metade da vida que nos deixaram// E como todos somos meio mortos/ os assassinos presumem não somente estar/ totalmente vivos/ mas também ser imortais[1].

Dalton se referia à matança de Izalco, de 1932, a revolta de trabalhadores e de camponeses, predominantemente indígenas, que saíram em defesa da vitória do Partido Comunista nas eleições para o Legislativo e para prefeitos naquele ano, e que encadeou uma repressão brutal por parte do governo do ditador Maximiliano Hernández Martínez, que incluiu ações de violência e extermínio étnico sistemático, as quais deixaram – segundo diversas fontes – cerca de 30 mil mortos. No entanto, as assoladoras imagens poéticas de Dalton também podem narrar o suplício dos setenta e cinco mil mortos, oito mil desaparecidos e um milhão de refugiados e deslocados durante a guerra dos doze anos, ou seja, o conflito armado que se iniciou em 1980 e se estendeu até a assinatura dos Acordos de Paz de 1992.

Por isso, o anúncio da assinatura de um decreto por parte do Papa Francisco, em que reconhece o martírio do bispo salvadorenho Oscar Arnulfo Romero, assassinado em 24 de março de 1980 por um comando militar sob as ordens do Major Roberto D’ Aubuisson, não apenas enche de alegria toda a América Latina – a crentes e não crentes, que reconhecem o legado do clérigo –, mas também constitui um ato de reparação histórica: por um lado, da memória das lutas populares em El Salvador; e, por outro, do conteúdo de verdade que incentivou milhares de homens e mulheres que pagaram com o preço de suas vidas pela reivindicação da justiça social, de igualdade, de liberdade e de dignidade humana, em uma sociedade dominada por uma oligarquia que, no século XX, ainda seguia vivendo na colônia.

A partir da experiência paradoxal de sua vida, na qual ele deixou de ser um arcebispo designado para reforçar a ordem oligárquica do regime e passou à radicalização de seu pensamento e de seu compromisso político, que o converteram em um pastor da igreja dos oprimidos, na figura de Romero converge esse amplo arco de aspirações e ideais que vão do etnocídio de 1932, ao “paroxismo da loucura” da guerra civil – como definiu a Comissão da Verdade da ONU para El Salvador –; dos martírios de Farabundo Martí e José Feliciano Ama, aos de Rutilio Grande e dos jesuítas da UCA, para citar alguns exemplos.

Acima da lógica do poder e dos interesses ideológicos do Vaticano, e acima das burocracias que custodiam os santuários e as portas do céu, Oscar Arnulfo Romero – São Romero da América – já havia sido elevado aos altares do povo há muito tempo. A decisão do Papa Francisco, contra a qual resistiram de mil e uma formas seus antecessores João Paulo II e Bento XVI, enaltece um homem que compreendeu as responsabilidades de seu tempo e a dor de seus compatriotas salvadorenhos e, ao mesmo tempo, reivindica uma igreja com rosto do povo, em consonância com a mensagem evangélica de Jesus Cristo.

Pouco antes de seu assassinato, Romero declarava em uma entrevista: “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho“. Hoje, Romero não apenas vive em El Salvador, mas na consciência e nas utopias de todas aquelas pessoas que não desistem da busca da libertação dos povos e do bem-estar das grandes maiorias.

 

*Andrés Mora Ramírez é Pesquisador do Instituto de Estudios Latinoamericanos e do Centro de Investigación y Docencia en Educación, da Universidad Nacional de Costa Rica.

 

 

Notas:

[1] Tradução livre de: “Ser salvadoreño es ser medio muerto /eso que se mueve / es la mitad de la vida que nos dejaron // Y como todos somos medio muertos / los asesinos presumen no solamente de estar / totalmente vivos / sino también de ser inmortales”.

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