Uma rede tem muitos nós, e existe para jogar-se nas águas

Por Aleksander Aguilar

A proposta de trabalho acadêmico coletivo, o GT “El istmo centroamericano repensando los centros”, foi aprovada na Clacso, e é a mais nova expressão da nossa rede O Istmo, que vem se consolidando nos últimos quatro anos com o objetivo de ampliar e fortalecer os olhares cruzados entre o Centro e o Sul da América; entre as estruturas e subjetividades, entre os fatos e os relatos, entre as disciplinas e as teorias, entre a academia e a sociedade civil, entre a história e a literatura, entre o passado, o presente e o futuro da região centro-americana.

 

 

Yo pienso a Centroamérica desde afuera porque ya no vivo en ella. La pienso desde el avión o el autobús, la pienso en carretera. La pienso, entre exabruptos emotivos o rigideces académicas, como a Centroamérica María. Muchas mañanas me despierto con el trauma federal pero acaricio a Centroamérica como si fuera mi hija por nacer. Centroamérica no ha nacido aún a pesar de los dos siglos, no la hemos nacido (Elena Salamanca).

Eram umas três e pouco da madrugada, no Brasil, quando o e-mail da Miroslava nos chegou. Foi só bem depois, porém, que vi sua mensagem no whatsaap contando que havia tentando falar em viva-voz com vários de nós, naquele instante mesmo da notícia, quando se deu conta de que era apenas no México, de onde nos escrevia, que ainda não era tão tarde, especialmente pra quem vai por finalizar uma dissertação de mestrado. Mas esse raciocínio de atenção com protocolos de horários, no momento de justificada euforia, era desimportante.

A esta hora Carmen Elena, na Argentina, provavelmente andava bem distante dos meios de comunicação eletrônicos e bem próxima ao seu bebê de poucos meses de idade, na dura conciliação da atividade como pesquisadora com a de ser mãe; Denia, na Costa Rica, deveria estar por fechar o material de uma próxima participação sua em uma publicação enquanto repassava a aula que daria no dia seguinte; Amaral  poderia estar pousando no Rio de Janeiro,  chegando entre uma viagem e outra de trabalho; e não me espantaria que mesmo sendo aquela hora tão tarde, Juan, em Foz do Iguaçu, ainda estivesse diante do computador em vias de fechar um projeto de deadline estrito; apostaria que Ana Clarice, em Fortaleza, que comumente troca as manhãs pelas madrugadas, estava em alguma articulação de contatos e revisões de textos,  e Juliana, em Recife, em toda sua diligência, já deveria até estar sabendo que o resultado, tão esperado, havia por fim chegado. E era bom.

Tão bom que, mesmo sendo a notícia em questão a representação de enormes responsabilidades no porvir – portanto um grande peso – foi paradoxalmente um alivio.  Este projeto que se expressa, em sua trajetória relativamente curta e absolutamente intensa, neste website, que chamamos por diversas e abertas razões de rede-plataforma O Istmo, estabelece agora seu primeiro amplo e sólido ponto nodal: o Grupo de Trabalho do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) “El istmo centroamericano repensando los centros” – 2016/2019, e é o único coletivo internacional de intelectuais dos aprovados na presente convocatória dessa prestigiosa organização acadêmica que nesse triênio se dedicará a refletir, pesquisar e articular em torno a temas sociopolíticos e culturais específicos da América Central.

Foi um alívio porque das mais de 500 propostas que a Clacso recebeu para conformação de Grupos de Trabalho (GT), apenas 110 foram aprovadas, incluindo a nossa proposta, o Plano de Atividades sobre o qual a equipe-base desta rede-plataforma debruçou-se a elaborar por vários meses em uma interação, sintonia e energia que geraram centenas de correios, dezenas de skypes, inúmeras horas de reflexão e geração de laços de identificação e confiança, ao ponto de nos apelidarmos “petit comité”, em deferência ao um grupo maior que conforma a totalidade do GT, 34  pesquisadoras e pesquisadores, de 11 países.

Em fato, não foram apenas meses, senão anos. Vários membros deste “petit” ainda não se conhecem pessoalmente. Mas apostamos por tecer uma rede, quase que literalmente, desde 2012, quando os primeiros nós se iniciaram.

Nas III Jornadas de Problemas Latinoamericanos, naquele ano realizado em Mendoza, Argentina, se inicia o esforço por construir um coletivo internacional centro-americanista, usando o terreno acadêmico-universitário que era o comum para todos. Num trabalho paciente e exaustivo de trocas de preocupações sobre o “comum” da América Central, de mobilizar contatos, estabelecer confianças, injetar ânimos e propostas, demos os primeiros pontos para formar esse tecido, dessa rede. Através de uma plataforma fácil, rápida e de domínio geral, outra rede, virtual, que diligentemente fomos e temos estado utilizando para realizar imaginações centro-americanas, começa a tomar formato.

 

Que podemos entender por “rede”?

La idea elemental de red es bastante simple. Se trata de una articulación entre diversas unidades que, a través de ciertas conexiones, intercambian elementos entre sí fortaleciéndose recíprocamente, y que pueden multiplicarse en nuevas unidades. Cada nodo de redes representa una unidad y cada hilo un canal por donde esas unidades se articulan a través de diversos flujos” (Mance, 2001).

 

Essa noção, na verdade uma inspiração ao debate, nem sempre cristalizada entre todas e todos nem mesmo do nosso “petit”, (e em fato estamos em plena fase de dialogar mais a fundo e encontrar consenso no que entendemos sobre o que é e o que pode fazer uma rede) tem, entretanto, o sentimento comum de que podíamos e devíamos fazer algo em conjunto.

Iniciamos naquele momento uma troca de materiais e informações através de redes sociais (facebook). A motivação inicial foi o entendimento compartilhado de que as ciências sócias – não apenas no Brasil mas também em muitas partes do continente – tem pendente a enorme tarefa de conhecer e debater o entorno centro-americano em todas as suas dimensões: sociais, culturais, econômicas e políticas.

A peculiaridade do lugar da América Central nas diferentes etapas, históricas, da globalização é a de que sua importância geoestratégica contrasta com a sua condição marginal no sistema internacional. A região nunca pode tirar proveito pleno da vantagem da sua posição, o que na verdade foi mais seu lugar de perdição. A herança colonial político-administrativa do vice-reino da Guatemala se fragmentou em pequenos Estados, cujos problemas de viabilidade persistem até hoje. Os enfoques relacionais numa lógica global, porém, nos levam a reconhecer que a pesar da permanência do Estado-nação desde o século XIX, o território do centro das Américas sempre esteve marcado por transferências e interconexões socioculturais.

Dessas reflexões surgiu uma iniciativa básica, gênesis dos anseios mais amplos que hoje nos guiam: um espaço de informação e análise, em espanhol e em português, sobre a América Central para começar a preencher minimamente o vazio de informação e crítica sobre a região. Para isso, convidamos à produção de textos curtos intelectuais centro-americanistas de vários países que, através dessa iniciativa, começavam a conhecer-se e a compartilhar graus mais profundos de preocupações e interesses. Assim surgiu esta plataforma O ISTMO, com base gerencial na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, dado que os primeiros impulsionadores de todo o projeto eram doutorandos nessa instituição.

 

Como tem sido o tecer da rede

Desse esforço várias ideias começam a materializar-se, e vão dando mais força a esse ponto nodal dessa rede (o da pesquisa acadêmica) ao mesmo tempo que aumenta a confiança de que outros nós, em outras áreas, podem formar-se e constituir redes de fato. Entre as conquistas nesse permanente tecer estão:

  • a própria plataforma, a página web, com a formação de uma equipe de tradutores(as) e a publicação das colaborações analíticas em Espanhol e Português. Essa página tem domínio próprio (oistmo.com) que foi comprado com recursos também dos nossos próprios bolsos, sem nenhum tipo de financiamento;
  • a mesa de lançamento oficial do projeto O ISTMO no evento Pré-Alas Recife, em 2014, que contou com a participação do companheiro sociólogo salvadorenho Rudis Ylmar Flores;
  • a relação de apoio e intercambio com o Instituto da América Latina, da UFPE, o qual ajudamos a estabelecer através dos nossos contatos;
  • a publicação de um livro em parceria com a Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), bilíngue, com todos os textos em espanhol e em português, tratando exclusivamente de temas centro-americanos, organizado através de compilação de textos que estão publicados na nossa página
  • a realização do painel acadêmico “Mídia, Estigma e Identidades na América Central” durante o Congresso Alas (Associação Latino-americana de Sociologia) na Costa Rica;
  • a realização exitosa de uma campanha online de “crowdfunding” em que se arrecadou valores referentes a 1000 dólares estadunidenses de diversos apoiadores do projeto para efetivar a reformulação do nosso website,

São acúmulos de conformação de laços, solidariedades e confianças, pessoas e intelectuais, que nos levam hoje a celebrar mais um projeto: o GT “El istmo centroamericano: repensando los centros”.

Trata-se do coletivo de trabalho acadêmico, aprovado na Clacso, que é a mais nova expressão da nossa rede O Istmo, que vem se consolidando nos últimos quatro anos com o objetivo de ampliar e fortalecer os olhares cruzados entre o Centro e o Sul da América; entre as estruturas e subjetividades, entre os fatos e os relatos, entre as disciplinas e as teorias, entre a academia e a sociedade civil, entre a história e a literatura, entre o passado, o presente e o futuro da região.

A ideia de colocar em diálogo esses diferentes olhares, aproximações e trajetórias em função da construção coletiva de conhecimento em torno a América Central é o que continua motivando a coesão do grupo, desse “petit” e do trabalho coletivo ampliado, como todas e todos demais que forma parte do corpo de pesquisadores desse GT, cuja aprovação celebramos hoje, e que estão convidados a tomar parte na realização de outras imaginações, outros pontos nodais de uma rede que está ai para fazer movimento, jogar-se nas águas, cumprir sua função de rede.

Si la patria es pequeña, uno sueña grande.” (Ruben Dario)

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