ANÁLISE: “Noturno sem pátria” e aldeãos diurnos transnoitados esperando que se dissipe o nublado do dia.

Por Willy Soto Acosta

Tradução: Juliana Vitorino

 

Tive a oportunidade de morar no sul da França durante quatro anos para realizar meus estudos de doutorado. Ainda que eu morasse em Aix-en-Provence, constantemente viajava para Cucuron, uma cidade típica da Idade Média, localizada em outra região, porque ali era a cada de meu orientador, Daniel van Eeuwen. Ele e sua esposa, Yolande, me convidavam para ficar em sua casa, com o pretexto de avançar na construção de minha tese, o que era verdade, mas, também, porque eles sabiam que eu era um aldeão costarriquenho que atravessava uma profunda crise de “mal de pátria”. Daniel era especialista em vinhos e Cucuron, cujas casas eram de pedra e onde todos conhecem a todos, era um laboratório colmado de vinhedos. Daniel, meu querido professor e amigo, que lamentavelmente faleceu há dois anos, em repetidas ocasiões, me contava a história de uma velhinha de Cucuron, que não apenas nunca tinha saído do pequeno povoado, como também se orgulhava disso. Isto incomodava meu professor, que passou mais tempo em aviões e outros continentes do que na França. Trago à memória essas recordações por conta dos fatos ocorridos estes dias em torna da decisão do Ministério da Educação Pública da Costa Rica, de abrir a possibilidade de cantar, no 30 de setembro, o hino da Nicarágua nos centros educativos costarriquenhos que tenham uma quantidade importante de estudantes provenientes deste país vizinho.

As reações de tergiversação histórica e de ignorância, de exaltação de um patriotismo barato, são grandiloquentes. Os costarriquenhos acreditamos ser tão grandes e universais, mas quão aldeãos somos! Como a velhinha Cucuron, nunca saímos mentalmente do nosso povoado e nos orgulhamos disso! Quem são os flibusteiros e qual é a pátria? Sobre o assunto de cantar ou não o hino da Nicarágua, circulou nas redes sociais uma imagem de Juan Rafael Mora, onde se diz que nenhum flibusteiro os obrigará a cantar o hino de outro país em sua terra natal.  Quando Mora fala da pátria, ele se refere à Centro-américa no contexto da Campanha Nacional! Recordemos que as “tropas” costarriquenhas foram à Nicarágua ajudar a expulsar os invasores flibusteiros, com um altíssimo custo e que, por conta de uma epidemia de cólera, a população costarriquenha se reduziu consideravelmente. Os costarriquenhos perdemos milhares de vidas por reclamar e defender a nossa pátria centro-americana. Ignorância? “Da raça se reconhece o cachorro”. Serei um vira-latas? Observando os comentários de algumas pessoas sobre o cantar ou não o hino da Nicarágua, me dou conta da ignorância que reina, inclusive (ou sobretudo?) a partir de pessoas com educação formal. Um colega universitário me disse que era costarriquenho, mas não centro-americano! Lembrei-me de meus estudos na França, quando me perguntavam constantemente se a Costa Rica era uma ilha da Oceania. Outro me indicou que deveríamos diferenciar entre os costarriquenhos legítimos daqueles que não são legítimos! Estamos falando de pessoas das Ciências Sociais! Devido a que em nossa casa temos vários cachorros, a maior parte cachorros de rua, me pergunto, então, qual será meu pedigree? Serei um vira-latas?

Como é possível que estes distintos acadêmicos expressem essas coisas? Mas, por favor, não questionem sua autoridade acadêmica! Não importa que nunca tenham escrito nada, nem nas paredes de um banheiro, eles têm uma arma letal, invencível, inquestionável, que lhes dá sua autoridade acadêmica: o terno e a gravata. São excelentes intelectuais, verdadeiros gênios! O próprio vento se detém ante suas aparências. Sim, aparências, porque não há tanto conteúdo. A estes intelectuais do credo costarriquenho superior, que se masturbam frente ao espelho ao invés de fazer amor com o outro, outra, outros, outras, com a outredade do outro, devemos recordar-lhes do poema de Jorge Debravo, um turrialbenho cosmopolita, que em uma época distante descobriu isso que hoje chamamos em Relações Internacionais de “bens públicos”. Nossa Escola de Relações Internacionais da Universidade Nacional da Costa Rica, deveria fazer a este poeta uma homenagem por ser precursor de nossa disciplina:

Nocturno sin patria Yo no quiero un cuchillo en manos de la patria. Ni un cuchillo ni un rifle para nadie: la tierra es para todos, como el aire. Me gustaría tener manos enormes, violentas y salvajes, para arrancar fronteras una a una y dejar de frontera solo el aire. Que nadie tenga tierra como tiene traje: que todos tengan tierra como tienen el aire. Cogería las guerras de la punta y no dejaría una en el paisaje y abriría la tierra para todos como si fuera el aire… Que el aire no es de nadie, nadie, nadie… Y todos tienen su parcela de aire.

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