ANÁLISE: ”O ANO EM QUE MEUS FILHOS SAÍRAM DE CENTRO-AMÉRICA – O êxodo infantil para os EUA”

*Por Arno Argueta

Traduzido por Martha Hirsch

 

O ano em que meus pais saíram de férias (Brasil – 2006), dirigido por Cao Hamburguer, conta a história do menino Mauro, neto de judeu e filho de um casal perseguido pela ditadura militar, que deve ficar na casa de seu avô, em São Paulo, enquanto os seus pais desaparecem ou “saem de férias” por um ano. O filme é ambientado em 1970 – auge das políticas repressivas da ditadura militar. Quando chega a São Paulo, Mauro descobre que seu avô tinha morrido. A comunidade judaica o cuida até que os pais possam ser encontrados. Sua mãe regressa, e logo, ambos fogem do Brasil.

Estranhamente, a história de Mauro se passa junto à copa do mundo de 1970, como também se joga agora, a copa de 2014. A história parece repetir-se, desta vez, nas histórias de meninos e meninas centro-americanos. A migração massiva de crianças e mulheres, na sua maioria da Guatemala, Honduras e El Salvador, em busca de asilo nos Estados Unidos chegou a números tão extremos, que o sistema de recepção nos Estados Unidos quase entrou em colapso. Assim, se expõem parte da longa história da política internacional dos países centro-americanos e os Estados Unidos – algo que os políticos estadunidenses parecem omitir.

Esta situação põe os dois lados (os países de saída e o país de chegada) em extremos e aponta para a história de exclusão e violência nesses países centro-americanos. O que estamos vendo é produto da violência estrutural que se desdobrou em anos de guerra. Segundo o Washington Post, mais de 52,000 crianças se encontram detidas [1]. Não obstante, nem um lado, nem o outro parecem querer aceitar o papel que ambos tiveram historicamente no devir dessa situação. As contínuas intervenções estadunidenses na américa central, as políticas exclusicionistas dos países centro-americanos, as deportações massivas durante a presidência de Obama, a violência do tráfico e o combate da guerra contra as drogas, todas, são ações políticas do passado, que levaram a que menores de idade preferissem a possibilidade de morrer no deserto, ou no caminho, do que (sobre) viver em seus respectivos países.

Inusitadamente, isso acontece 60 anos depois da saída forçada de Jacobo Arbenz da presidência guatemalteca, um feito que parece dar um “twist” quase macabro e que certamente aponta pelo menos a algumas das raízes da migração de crianças. Se os Estados Unidos aceita seu papel no caso de Arbenz, deve aceitar seu papel na inclusão de políticas neoliberais nesses países como também deve aceitar que a promoção do excepcionalismo estadunidense são razões importantes pelas quais essas crianças estão chegando aos Estados Unidos.

Obama chamou de uma “crise humanitária” e a resposta do presidente estadunidense foi a de pedir fundos (200 milhões segundo o Washington Post) e poderes ao congresso para financiar o regresso dessas crianças e mulheres a seus países de origem. Os políticos focaram-se na prevenção da chegada de novas crianças migrantes, em mostrar que a migração não é bem vinda nos Estados Unidos. Claramente, isso tenta omitir o fato de que as razões pelas quais tanta gente está buscando asilo, é porque há uma guerra em nossos países, a qual é parcialmente produto da política internacional estadunidense. Essas crianças e mães solteiras vão aos Estados Unidos pensando em seus direitos humanos, que o pedido de exílio ajudará a melhorar suas vidas. Parece extraído da canção Vou me transformar em uma ave, da banda de rock mexicano Maná: “dizem que os direitos humanos vão me ajudar, mas aqui eu não vejo humanos…”

Em O ano em que meus pais saíram de férias, a comunidade judaica pergunta ao Rabino como lidar com Mauro, quem deve se responsabilizar e o que se deve fazer com o menino. O Rabino cita a história de Moisés, que, havendo chegado às mãos da princesa do Egito numa cesta para ser salvo da violência que poderia tirar-lhe a vida, cresce sob sua tutela. Estamos presenciando outro capítulo da longa e contínua história do autoexílio humano para preservar sua vida.

O essencial será ver se ganharão os direitos humanos destes migrantes ou a política anti-migratória dos Estados Unidos. Desta maneira, é importante reforçar e esclarecer que o que estamos vivendo não é uma “crise humanitária,” como declarou Obama. O que estamos vivendo é a humanidade em crise. Necessitamos enfatizar a humanidade das crianças refugiadas e distanciarmo-nos do discurso político estadunidense da “ilegalidade”, através do qual se desumanizam esses infantes.

O outro lado importante a ser percebido é a situação de violência que se vive na américa central. O presidente da Guatemala foi eleito graças ao seu lema de “Mano dura,” uma política que mostrou-se ineficaz para resolver os problemas da violência na Guatemala. E continua a guerra contra as drogas na América Central e no México, liderada pelos Estados Unidos. Recentemente, na cúpula de Sistema de Integración de Centro América (SICA), os presidentes da América Central redigiram uma carta onde enfatizam que esperam a garantia dos direitos e o bem-estar das crianças migrantes, além de um enfoque na unificação familiar. Ainda concordaram reunir-se em Honduras nos dias 16-17 de julho para encontrar soluções a este êxodo massivo.

Mesmo que eu queira crer que algo bom resultará desta situação, e que os presidentes que se reunirão em meados de julho na realidade querem o bem-estar para essas crianças; historicamente nossos países estão construídos sob a lógica do colonialismo, na qual a violência e a discriminação estruturais estão enraizadas. Para solucionar este problema, pequenas mudanças (como as que Obama propôs dentro dos EEUU) talvez cheguem demasiado tarde e não sejam suficientes. Como recorda a voz narradora de pequeno Mauro/Moshe, ao final de O ano em que meus pais saíram de férias: “mesmo sem querer nem entender direito eu acabei virando uma coisa chamada exilado eu acho que exilado quer dizer ter um pai tão atrasado mas tão atrasado que nunca mais vai voltar pra casa.” Tomara que “la patria” não seja tão, mas tão atrasada que essa crianças nunca possam regressar a casa.

 

[1] http://www.washingtonpost.com/politics/obama-to-ask-for-2-billion-in-emergency-funds-to-stem-immigration-influx/2014/06/28/f532babe-ff2e-11e3-8176-f2c941cf35f1_story.html?hpid=z1

 

 

* Arno Argueta é estudante do doutorado em Espanhol e Português na Universidade de Texas, em Austin. No seu segundo ano, Arno trabalha literaturas e cinemas comparativos, questionando discursos de cidadania legal e cultural, criação de identidades e raça, e as respostas e debates de pertença por sujeitos racializados na Guatemala e no Brasil num mundo globalizado e midiático.

 

 

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