ANÁLISE: “CHIKUNGUNYA EM EL SALVADOR- UMA EPIDEMIA QUE ULTRAPASSA A CAPACIDADE DO MINISTÉRIO DA SAÚDE”

Por Rudis Yilmar Flores Hernández*

Tradução por Wenerton Soares

Revisão: Mariana Yante B. Pereira

 

Segundo a Organização Pan-americana de Saúde, Chikungunya é um vírus, cujo significado deriva de uma palavra em Makonde, que também é o idioma de um grupo étnico que reside no Sudeste da Tanzânia e ao Norte de Moçambique, cujo significado descreve a aparência curva das pessoas que sofrem da dolorosa artralgia e de seus sintomas.  No século passado, ocorreram surtos na África e na Ásia que afetaram comunidades pequenas e rurais; anos mais tarde, esse fenômeno continuou com sua onda expansiva e, dessa forma, em 2009, detectaram-se mais de meio milhão de casos nas costas do Quênia e de outras ilhas do Oceano Índico. Em 2010, os efeitos já se faziam sentir na Índia, Itália, França e Estados Unidos.

A febre chikungunya caracteriza-se pela aparição súbita de febre, geralmente acompanhada de dores articulares. Outros sinais e sintomas frequentes são: dores musculares, dores de cabeça, náuseas, cansaço e erupções cutâneas. As dores articulares podem ser debilitantes e geralmente desaparecem em poucos dias. A maioria dos pacientes se recupera completamente, porém, em alguns casos, as dores articulares podem durar vários meses, às vezes até anos. Casos ocasionais com complicações oculares, neurológicas e cardíacas, bem como problemas gastrointestinais, têm sido descritos.

Em sua fase aguda, produz febre, que pode ser intensa, entre 39° e 40°C, poliartralgias – que consistem em dor intensa nas articulações –, dor lombar, conjuntivite, vômitos, adenopatias supraclaviculares e náuseas. As complicações graves não são frequentes, porém, em idosos, a doença pode levar à morte. Frequentemente, os pacientes apenas possuem sintomas leves e a infecção pode passar despercebida ou ser diagnosticada erroneamente como dengue, em lugares nos quais esta é frequente.

Segundo a OMS, o vírus se transmite de uma pessoa a outras pela picada dos mosquitos-fêmea infectados. Geralmente os mosquitos transmissores são o Aedes aegypti e o Aedes albopictus – duas espécies que também podem transmitir outros vírus, entre eles, o da dengue. Esses mosquitos tendem a picar durante todo o período diurno, embora o ápice de sua atividade dê-se no início da manhã e no final da tarde. Ambas as espécies picam ao ar livre, mas o Aedes aegypti também pode fazê-lo em ambientes fechados.

A febre de Chicungunya é uma enfermidade endêmica nos países do sudeste da Ásia, África e Oceania, além de ser emergente na região das Américas e, desde fevereiro de 2014, introduzida na República Dominicana, onde se estima que mais de 60 mil pessoas padecem do vírus transmitido pelo vetor Aedes aegypti.

Até o presente momento de 2014, El Salvador  tornou-se o primeiro país da América Central a reportar casos do vírus; os primeiros casos apareceram no cantão Zapote Abajo, do município de Ayutuxtepeque, departamento de San Salvador, propagando-se por outros catorze distritos do país e aumentando de forma vertiginosa o número de vítimas afetadas. No período compreendido entre maio e outubro, reportaram-se oficialmente, segundo dados dos Ministérios de Saúde (MINSAL) e de Proteção Civil, 54.128 casos, ainda que seja necessário reconhecer que existe, extraoficialmente, um sub-registro de informações, na medida em que há um número de pacientes que adquirem a enfermidade e não se utilizam do Sistema de Saúde, tratando-se por seus próprios meios. Isso dificulta a disponibilização de um diagnóstico que revele dados estatísticos reais sobre o número de casos até esta data.

A propagação do Chicungunya encontrou em El Salvador terra fértil; esse país apresenta permanentemente um número considerável de casos de dengue, entre os quais as zonas urbano-marginais representam a  maior porcentagem, devido às condições de vida da população, carente de serviços como água potável, esgotamento sanitário,  coleta de resíduos e, por consequência, do baixo nível educacional e da falta de consciência da população em seguir as recomendações  emanadas do Ministério da Saúde. Tanto é assim que o mesmo mosquito transmissor da dengue é também o transmissor do Chicungunya.

É importante destacar que, ao dar-se continuidade às observações de casos em familiares ou vizinhos, verificou-se que o vírus começou a mudar, e se anuncia a partir de distintas formas; em alguns, manifesta-se com sintomas de febre e dores nas articulações, e, em pessoas que sofrem de artrite ou reumatismo, as consequências são mais dolorosas, prolongando tais doenças; em outras pessoas que têm sua saúde comprometida por diferentes doenças, leva a óbito. Existem pacientes que experimentam a fase aguda nos primeiros sete dias, enquanto outros podem passar um mês ou permanecer por vários meses com dores, de acordo com seu estado de saúde.

O Ministério da Saúde, entre algumas recomendações, está sugerindo que os contagiados com o vírus devam repousar de preferência usando um mosquiteiro (porque se tornam transmissores após o contágio), hidratação com soro, água abundante e apenas a administração de paracetamol; nos casos infantis, requer-se um cuidado especial dos adultos e não descuidar da hidratação; também é conveniente eliminar os focos do mosquito – para o que a população salvadorenha tem colaborado pouco –, sendo também recomendável a utilização de roupas compridas e repelentes.

Este país apresenta grandes problemas, como a violência, que conduz a uma taxa muito alta de homicídios, entre oito e dez por dia, e é vulnerável aos fenômenos naturais; em razão disso, o Chikungunya foge ao controle do Sistema de Saúde Pública. A despeito de todos os esforços realizados, não logramos superar a dengue e tal problema agrava as condições de saúde do povo salvadorenho; não existem fundos suficientes para enfrentar esse tipo de enfermidades, os agentes de saúde são insuficientes para desenvolver um trabalho de controle dos focos do mosquito, e fazem falta combustível e maquinário para uma dedetização permanente.

Muitos consideram que o Chikungunya já pode ser equiparado à dengue e a outros tipos de enfermidades, como as cardiorrespiratórias; frente a esse novo desafio para o MINSAL, é importante avançar nos processos educativos da população, para uma conscientização dos perigos que pode ocasionar aos membros das famílias o não engajamento da população no combate aos focos do mosquito em seus lares.

 

*Rudis Yilmar Flores Hernandez é sociólogo, professor da Universidad de El Salvador, campus San Miguel ryflores.ues@gmail.com

 

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