EDITORIAL: Ainda bem que tivemos “los ticos”!

*Por Aleksander Aguilar

Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.

Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: “¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!”. Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.

Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa…).

Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.

Muito futebol, muita política
E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.

A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.

Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.

A América Central hoje
Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.

A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.

Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.

Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.

Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.

No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.

*Aleksander Aguilar, é o editor deste blog-projeto O ISTMO

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