ANÁLISE: América Central e as fronteiras “flexíveis” do império

Por Andrés Mora Ramírez*

 

A política externa dos Estados Unidos para a América Latina não tem nada de inocente ou ingênua: nenhum gesto, nenhum piscar de olhos, nem sequer a declaração aparentemente mais comedida, são resultado da improvisação. Tudo responde a um roteiro por meio do qual se executam os planos estratégicos de Washington, em curto, médio e longo prazo. E ainda que, em determinados momentos, esse planejamento falhe ou encontre obstáculos, produto das resistências sociais, das revoluções, das lideranças emergentes ou de seus próprios erros de cálculo e de leitura diplomática, o certo é que as linhas mestras se mantêm praticamente invariáveis: expansionismo, ingerência sobre os assuntos internos dos países para proteger seus interesses específicos, apropriação de recursos naturais, investimento de capitais, segurança nacional e, em resumo, reprodução de sua hegemonia a todo custo. Thomas Shannon, o novo conselheiro do Departamento de Estado, acaba de nos relembrar essa obviedade durante sua recente visita a Madri (22 de julho).

Convidado pela organização Casa América, o experiente funcionário ministrou uma conferência sobre a política estadunidense para a América Central, da qual emergiram declarações um tanto reveladoras do papel estratégico que Washington se atribui ao controle do istmo, em função de suas necessidades de dominação hemisférica. Por um lado, Shannon recordou os dois pilares sobre os quais os Estados Unidos se projetam hoje na região centro-americana: a segurança nacional, o desenvolvimento econômico – via tratado de livre comércio e agora com a Aliança para a Prosperidade do Triângulo Norte –, e as migrações ilegais (especialmente de crianças que, forçadas ao exílio econômico pelo capitalismo neoliberal de nossos países, empreendem solitárias a busca do sonho americano).

Não obstante, como sugerimos em outro artigo, mais além da retórica da boa vizinhança com a qual se promovem estas iniciativas, os propósitos reais se inscrevem no campo da geopolítica, e, em concreto, perseguem o recrudescimento do domínio estadunidense e a proteção da fronteira sul do império. “Decidimos nos aproximar da América Central da mesma forma que decidimos nos aproximar da Colômbia quando estávamos construindo o Plano Colômbia”, reconheceu o diplomata em sua exposição, aludindo – com uma referência infeliz, dada a experiência do caso colombiano – a entendimentos e acordos com os dirigentes políticos e governos – elites – de cada país em matéria de segurança.

Por outro lado, o funcionário definiu a América Central como uma das cinco prioridades da política externa da Casa Branca, juntamente com o Irã, Rússia, China e o exército do Estado Islâmico. Em outras palavras, o espaço geográfico, político, ambiental e socioeconômico centro-americano, tradicionalmente marginal e oprimido pelas severas condições de pobreza (que afeta quase a metade dos centro-americanos) e de desigualdade, está sendo considerado pelo Departamento de Estado como uma questão vital, no mesmo nível de seus competidores hegemônicos globais e sobrepondo-se, inclusive, às relações com Cuba, com a Venezuela e com o Brasil.

Isso, que à primeira vista poderia parecer um absurdo, foi explicado por Shannon em termos da importância da região como ponte que conecta, de maneira estratégica, o norte e o sul da América, assim como o Pacífico e o Atlântico. “Estamos entrando em uma etapa na qual usamos nossa presença histórica para construir um novo tipo de América Central, comprometida com a democracia, com a economia de mercado e com a integração regional”, e agregou que se está definindo também uma nova forma de entender a uma América do Norte “que não termina no rio Grande, mas que inclui o México e a América Central. O istmo já não é um istmo, mas parte de um mercado integrado, de um sistema de segurança integrado, dentro de um processo político com um compromisso forte com a democracia”.

Assistimos, então, a uma nova atualização da tese da expansão da fronteira sul do império, ou de sua flexibilização, com vistas à reconfiguração das zonas de influência imediata. Algo que já havia se apresentado no século XIX, com a guerra entre Estados Unidos e México (1846-1848), resolvida por meio da assinatura do tratado Guadalupe-Hidalgo, e que implicou a humilhante entrega da metade do território mexicano (Califórnia, Arizona, Texas e Novo México) em troca de uma ridícula compensação de 15 milhões de dólares; ou com as empresas escravistas e anexionistas de William Walker na Nicarágua e na Costa Rica, entre 1855-1857, para citar alguns exemplos.

O que Shannon expôs em Madri como uma complexa tarefa de reengenharia geopolítica não é outra coisa que não a diluição das fronteiras do México, da América Central e do Caribe nas margens materiais e simbólicas da nova cartografia da dominação econômica, política e militar dos Estados Unidos: um processo que vivemos desde os anos noventa do século XX e que se acelerou no século XXI, a partir da articulação de projetos geoestratégicos como o TLCAN, o ASPAN, o CAFTA, o Plano Puebla Panamá, o Plano Mérida e a Aliança para a Prosperidade do Triângulo Norte.

Para isso, Thomas Shannon viaja pelo mundo: para lembrar aos competidores globais que as ambições e apetites imperiais se mantêm intactos, e que a América Central tem um lugar de privilégio no menu.

 

*Andrés Mora Ramírez é Pesquisador do Instituto de  Estudios Latinoamericanos e do Centro de Investigación y Docencia em Educación, da Universidad Nacional de Costa Rica.

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