ANÁLISE: A juventude de El Salvador – uma aproximação

 

*Por  Amaral Palevi Gómez Arévalo

O conceito de juventude bem como as suas necessidades, interesses e problemas são temas que vem ganhando importância em El Salvador, de acordo com a publicação da Lei General de Juventude (LGJ) promulgada no ano 2012. O reconhecimento político das pessoas jovens entre 15 e 29 anos de idade (ASAMBLEA LEGISLATIVA, 2012, Art. 2) surge a partir de uma concepção negativa sobre a juventude: a violência. As situações de violência nas quais muitos jovens se envolvem e amplamente difundidas pelos meios de comunicação, estigmatizam a juventude como um problema, impossibilitando que tenham a oportunidade de participação na transformação dos conflitos que lhes afetam. Dessa maneira, se há construído uma epistemologia da juventude relacionada à violência.

A juventude salvadorenha, retomando os aportes da Encuesta Nacional de Juventud (Iudop, 2008), tem na heterogeneidade uma característica que define a realidade deste grupo: trata-se de vários grupos de jovens que ainda que tenham em comum certas características sociais e demográficas, o que mais os vincula são as dificuldades particulares que cada grupo tem para construir uma vida digna.

Segundo a Encuesta Nacional de Juventud (Iudop, 2008), os contextos urbano e rural também marcam dois polos de diferenciação e um abismo de possibilidades e oportunidades. Nos setores rurais, a transição à idade adulta acontece de forma prematura, a partir da constituição de laços de conjugalidade em que eles passam a assumir responsabilidades econômicas e familiares. Esta situação está relacionada à falta do reconhecimento dos Direitos Sexuais e Reprodutivos dos jovens como sujeitos de direitos, os quais não contam com um projeto de vida, e por tal motivo optam por ter filhos como um fenômeno organizador para as suas vidas (DE KEIJZER; RODRÍGUEZ, 2003, p. 39). Para os setores mais empobrecidos – imersos em círculos de pobreza e violência – os seus filhos possuem uma maior probabilidade de repetir a mesma história. No âmbito da saúde, se tipifica a gravidez na adolescência como sendo de alto risco, devido à existência de um significativo índice de mortalidade por gravidez e parto (OIJ, 2008, p. 20). As/os jovens rurais enfrentam também um importante processo de marginalização por parte do Estado, no que se refere à cobertura e satisfação de suas necessidades e direitos básicos.

Em oposição, as/os jovens urbanos contam com maiores oportunidades educacionais, de emprego, de espaços de lazer e ofertas culturais, mas têm que enfrentar outra série de desafios não menos importantes como a ameaça de violência e insegurança. Neste sentido, há um aspecto que nem sempre é claro para muitas pessoas: a pobreza por si mesma não gera violência; mas são as condições de exclusão social, que em locais específicos, possuem todos os meios para que ela se desenvolva.

Se compararmos os 20 municípios mais violentos (PNUD, 2009, p. 87) com municípios mais pobres e com maior desenvolvimento humano (PNUD, 2006, p. 20, 58) e com aqueles com mais precariedade e quantidade de Assentamentos Urbanos Precários (AUP) (EL SALVADOR, 2010, p. 80-90) vemos que entre os 20 municípios mais pobres do país, nenhum deles é dos mais violentos. Mas, quando observamos os municípios com maior índice de desenvolvimento humano, vários estão incluídos entre aqueles com mais homicídios, possuindo um grau de precariedade extrema e maior quantidade de assentamentos urbanos precários. É a mostra concreta “[…] donde se concentra la pobreza y se materializa la exclusión social” (EL SALVADOR, 2010, p. 76), gerando processos de violência.

A Área Metropolitana de San Salvador (AMSS) é a zona onde a exclusão social se concentra, gerando atos de violência. No ano de 2012 na AMSS registraram-se 75 homicídios por 100,000 habitantes (SAVENIJE; BELTRAN, 2012, p. 18), enquanto que no nível geral do país, no período compreendido entre 2003 e 2012, houve 35,000 homicídios por efeitos da violência (PNUD, 2013: 41).

Retomando os aportes da concepção da Política Nacional de Juventude (2011), entendemos que não existe um só tipo de juventude, mas sim uma diversidade que deve ser assumida como um valor e não como um problema (Injuve, 2011, p. 45). Assim, entenderemos que jovens vulneráveis são aqueles/as que moram nos assentamentos urbanos precários, constituídos por: “barrios con pobreza y exclusión, altos niveles de violencia y con residentes jóvenes altamente vulnerables a volverse víctimas o protagonistas de la misma” (SAVENIJE; BELTRAN, 2012, p. 12). A interface geocultural donde convergem as duas áreas problemáticas detectadas pelo Dialogo Nacional com Juventudes são: a) desemprego e pobreza, e b) insegurança e violência (Injuve, 2011, p. 43). Estas situações se agravam quando os jovens estão excluídos de processos participativos e de reconhecimento de seus direitos, remetendo-os a uma participação limitada, tanto para fazer uma simples análise de sua própria situação e reconhecer seus próprios problemas (diagnósticos), quanto para propor soluções para suas problemáticas.

Dessa maneira, estrutura-se uma juventude que carece de uma visão de seu próprio futuro, destinada a continuar reproduzindo modelos de vida consumista e sem perspectivas para o desenvolvimento pessoal, comunitário ou local, integrando-se em processos de violência como única via de sobrevivência. Tema que abordaremos na próxima publicação.

 

Amaral Palevi Gómez Arevalo é Docente de Ensino Superior, Doutor em Estudos Internacionais em Paz, Coonflitos e Desenvolvimento (Universitat Jaume I), Graduado em Ciências da Educação (Universidad de El Salvador). Gestor de projetos de desenvolvimento comunitário com jovens, homens e atenção à população LGBT. Promotor de cultura de paz, a partir de meios audiovisuais.

 

REFERÊNCIAS

 

ASAMBLEA LEGISLATIVA. Decreto nº 910, de 11 de noviembre de 2011. Centro de Documentação Legislativa [de] El Salvador, 6 feb. 2012.

DE KEIJZER, B.; RODRÍGUEZ, G. Jóvenes rurales. Género y generación en un mundo cambiante. In: OLAVARRÍA, J. Varones adolescentes: género, identidades y sexualidades en América Latina. Santiago de Chile: Salesianos, 2003. p. 33-52.

EL SALVADOR.  Ministerio de Economía. Mapa de pobreza urbana y exclusión social El Salvador: conceptos y metodología. San Salvador: PNUD, FLACSO, MINEC, 2010. v. 1.

INSTITUTO NACIONAL DE LA JUVENTUD (Injuve). Política nacional de juventud: 2011-2024. San Salvador: INJUVE, 2011.

INSTITUTO UNIVERSITARIO DE OPINIÓN PÚBLICA (Iudop). Encuesta Nacional de Juventud: Proyecto Sembrando Futuro. Niñez y juventud sin violencia, desde la participación ciudadana y los derechos humanos, San Salvador: UCA, 2008.

ORGANIZACIÓN IBEROAMERICANA DE LA JUVENTUD (OIJ). 2008: Nuevos desafíos con las y los Jóvenes de Iberoamerica. Madrid: OIJ, 2008.

Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD). Informe 262: indicadores municipales sobre desarrollo humano y objetivos del milenio. San Salvador: FUNDAUNGO; La Libertad: PNUD, 2006.

______. Informe sobre Desarrollo Humano para América Central  2009-2010: Abrir espacios a la seguridad ciudadana y el desarrollo humano. Bogotá: D’vinni, 2009.

_____. Informe sobre Desarrollo Humano El Salvador 2013. Imaginar un nuevo país. Hacerlo posible: Diagnóstico y propuesta. 1ª ed. San Salvador: Impresos Múltiples. 2013.

SAVENIJE, W.; BELTRÁN, M. A. Conceptualización del modelo de prevención social de la violencia con participación juvenil. San Salvador: Injuve, 2012.

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