EDITORIAL: Crianças migrantes – drama estadunidense ou tragédia centro-americana?

Por Juliana Vitorino*

 

A literatura acadêmica que trata das migrações centro-americanas é vasta, embora conte com uma agenda de pesquisa desorganizada. Por conta do lugar periférico que ocupa a América Central, a explicação número 1 para o deslocamento de pessoas vem dos clássicos argumentos socioeconômicos: pobreza, desigualdade social e de acesso a políticas públicas fundamentais, desemprego, crises econômicas. Por conta do singular histórico de violências, ditaduras, guerras e ingerências externas, construiu-se uma segunda explicação: o da migração por violência ou perseguição política.

Após o fim das Guerras Centro-americanas (Nicarágua, 1979; El Salvador, 1980-1992; Guatemala, 1966-1996), todas elas com aparato repressivo financiado pelo governo dos Estados Unidos, a região encontrava-se frágil, destruída, politicamente polarizada e economicamente inviável. Apostou-se na responsabilidade internacional para amenizar alguns problemas e foi assim que ONGs internacionais adentraram nos países, organismos internacionais financiaram projetos de infraestrutura e seus governos endividaram-se com organismos financeiros, forçando uma dependência externa que abriu caminho para um neoliberalismo ainda mais profundo e radical.

Persistiram a pobreza, o desemprego, a fragilidade institucional e sucessivas crises econômicas. Nesse contexto, milhares de pessoas migraram, sobretudo, para os Estados Unidos, em busca de uma forma melhor de vida. No início dos anos 1990, a América Central ainda contou com a impertinência do Governo Bush (1989-1993), que deportou milhares de centro-americanos membros de gangues que haviam cumprido pena em prisões estadunidenses. As gangues, conhecidas na América Central por maras ou pandillas, eram um dos grandes problemas de segurança para os Estados Unidos e muitas delas eram compostas por imigrantes, como a Mara Salvatrucha 13 e Pandilla Barrio 18, que eram, em resumo, formadas por imigrantes centro-americanos que haviam fugido das Guerras.

No início dos anos 2000, as estruturas criminais tanto da Mara Salvatrucha 13 como da Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo, estavam bem enraizadas em uma América Central ainda pobre e de instituições frágeis. Foi quando começou o período de fortalecimento e recrutamento de novos membros, que passaram a ser não somente os jovens que outrora admiravam o poder dos “caras que vieram do Norte”, mas jovens moradores de bairros pobres ou estudantes de escolas secundárias, ambos ambientes controlados pelas gangues. Dentre os recrutados, chama a atenção o número de adolescentes que veem na gangue uma espécie de família, que ampara e aceita, mas que pode punir e até matar. O fato de pertencerem a famílias desestruturadas pela migração os une. Foram crianças que cresceram longe de seus pais e mães e que não tiveram em seu processo de formação a presença de figuras norteadoras que foram obrigadas a emigrar em busca das oportunidades de sobrevivência negadas em seus países.

Há alguns anos que se constata uma crescente evasão escolar, que vem ocorrendo cada vez mais cedo. Suspeitava-se que isso se devia à migração para reencontro familiar. Porém, a perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos. O padrão migratório tornou-se tão evidente que academicamente começamos a usar termos mais apropriados à realidade centro-americana, como é o caso da migração ocasionada por violência. E também houve a defesa, por parte de organismos internacionais, da concessão de refúgio para migrantes perseguidos pela violência de gangues. Estas eram sinalizações de que as migrações passavam por um período de agravamento, no entanto, os Estados centro-americanos não tomaram nenhuma medida resolutiva.

Recentemente, vários meios de comunicação internacionais e brasileiros começaram a repercutir uma situação peculiar: a chegada de milhares de crianças (estima-se entre 50 e 60 mil) à fronteira do México com os Estados Unidos. Apesar da migração infantil não ser novidade, 2014 representa o auge, em termos numéricos, do atravessamento de crianças. De forma quase unânime, também nos informam que as crianças chegam “desacompanhadas” à fronteira, nada mais distante da realidade. Toda travessia, de qualquer migrante, é feita por coiotes, que cobram entre 4.000 e 7000 dólares para realizar a viagem em direção aos Estados Unidos. Geralmente, famílias que já migraram recorrem a esse tipo de serviço para reunirem-se com seus filhos, retirando-os do perigo que representam as pandillas, para que tenham a chance de sobreviver em um lugar melhor. Elas fogem da incerteza do futuro, fogem para tentar ter vida. Mas, parece que querer vida, no entanto, é querer demais, já que o governo estadunidense informou que não permitirá a entrada dessas crianças em seu território. Serão todas enviadas de volta, em mais uma onda de deportação de centro-americanos.

Outro discurso que acabou se construindo foi o de que supostamente a crise das crianças, como está sendo chamada, foi ocasionada por causa da falsa informação de que as crianças, ao chegar à fronteira, “desacompanhadas e sem documentos”, não podem ser deportadas pelas autoridades fronteiriças e lhes seriam dadas documentos para que possam entrar de forma regularizada nos Estados Unidos. Novamente, algo longe da realidade. É difícil acreditar que imigrantes indocumentados, acostumados a perecer toda sorte de perseguições e conviver em um submundo com suas subcidadanias, acreditem que essa opção seja factível. Por outro lado, de acordo com autoridades diplomáticas centro-americanas, uma explicação melhor seria a própria melhora de vida dos centro-americanos nos Estados Unidos, que lhes proporciona a possibilidade de planejar uma reunificação familiar a qualquer custo.

É compreensível que o Presidente Barack Obama – aquele Democrata que defendeu durante a campanha à reeleição uma Reforma Migratória e, até agora, pouco fez para viabilizá-la – decida proteger a Terra da Liberdade de imigrantes indocumentados. A justificativa da fragilidade econômica pós-crise de 2008 e a salvaguarda de empregos podem até passar como aceitáveis. Porém, existe um argumento que tem passado despercebido: o problema das migrações massivas para os Estados Unidos, que descamba na atual crise que envolve as crianças indocumentadas, deve ser tratado como responsabilidade compartilhada entre governos centro-americanos e governo estadunidense. Nesse cenário, o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis.

A resolução do problema, seja permitindo o reencontro familiar ou concedendo refúgio, é ação que deve ser pleiteada. E, se concedida, não deve ser encarada como benevolência, mas como reparação por haver ocasionado ou aprofundado as causas estruturais que fizeram com que a migração fosse encarada como valorizado mecanismo de sobrevivência.

 

*Juliana Vitorino é graduada em Relações Internacionais, mestre e doutoranda em Ciência Política, Professora de Relações Internacionais e pesquisa sobre migrações centro-americanas e desenvolvimento. É umas editoras deste blog O ISTMO.

 

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