Análise: Pobreza e mudanças climáticas – o que ocorre na América Central?

Autor: Andrés Mora Ramírez *

Tradução: Lucas S. Matter

Revisão: Juliana Vitorino

 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, pela sua sigla em Inglês) apresentou há poucos dias, em Copenhague, uma síntese dos resultados do Quinto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O comunicado oficial do IPCC inicia com uma advertência que deveria chamar à reflexão e à ação os governos, movimentos sociais e povos do mundo, especialmente dos países mais pobres: “A influência humana no sistema climático é clara e vem aumentando, e seus impactos se observam em todos continentes. Se não for colocado um freio, as mudanças climáticas farão com que se aumente a probabilidade de impactos graves, generalizados e irreversíveis nas pessoas e nos ecossistemas”.

De acordo com especialistas, os riscos associados a esse fenômeno global “são particularmente problemáticos para países menos avançados e comunidades vulneráveis”, que dispõem de menos recursos econômicos e infraestrutura para buscar soluções, e que paradoxalmente, são os grupos humanos que menos contribuem com as emissões de gases de efeito estufa, em comparação com os países de economias industrializadas.

As pessoas marginalizadas nos âmbitos social, econômico, cultural, político, institucional, entre outros, são especialmente vulneráveis às mudanças climáticas”, conclui o IPCC. Um chamado de alerta para uma região como a América Central, na qual quase 48% de sua população vive em condição de pobreza.

Precisamente, um recente relatório do escritório da ONU para a Redução de Riscos de Desastre qualifica a América Central como “uma zona de multi-ameaças” pelo impacto combinado de fenômenos ambientais e fatores vinculados aos padrões historicamente dominantes do (mal)desenvolvimento e da cultura ambiental (as relações entre a natureza e sociedade) na região. O documento identifica, por exemplo, a elevada frequência de eventos de origem meteorológico, “a pobreza, infraestruturas insuficientes ou projetadas sem levar em consideração o impacto de ameaças naturais, de uma ocupação e uso do território que transgride normas básicas de ordenamento urbano e uma pressão excessiva para o uso intensivo dos recursos naturais” como os principais “fatores subjacentes de risco” das mudanças climáticas. De acordo com o documento, 95% da população de El Salvador está “exposta ao risco” por desastres naturais, na Guatemala 92% da sua população, na Costa Rica 85%, na Nicarágua 69% e em Honduras 56%.

Esse diagnóstico coincide com o diagnóstico da CEPAL que, usando outra perspectiva de análise, apresentou, em 2012, seu relatório A economia do cambio climático na América Central. Neste estudo, foram estabelecidos cenários prospectivos críticos a partir de quatro variáveis: aumento da população e maior demanda de água para consumo humano, produção agropecuária e segurança alimentar, biodiversidade, pobreza e saúde.

Segundo a CEPAL, se continuam as tendências atuais das mudanças climáticas no mundo, e as tendências socioeconômicas e ambientais na América Central, nos próximos anos enfrentaríamos um aumento na demanda de recurso hídrico de até 300% em 2050, o que no cenário mais pessimista equivaleria a um índice do uso de água de mais de 370% (para comparação: internacionalmente, considera-se que 20% é uma situação de estresse hídrico), e serão criadas condições “similares ao que acontece atualmente no Egito e em alguns países da península arábe”.

No setor agropecuário e agroindustrial, que representam 18% do PIB centroamericano, as mudanças climáticas poderiam provocar um decrescimento dramático da produção de milho, feijão e arroz, o que afetaria “a segurança alimentar dos produtores rurais – ao reduzir a produção de alimentos – e o acesso direto aos mesmos. Além de aumentar os preços e/ou a escassez desses alimentos para os consumidores, aumentando a possibilidade de importações compensatórias”.

A diversidade biológica centro-americana, que atualmente representa 7% da biodiversidade mundial, também sofreria consequências: produto das mudanças climáticas, o Índice de Biodiversidade Potencial, ao final do século XXI, diminuiria entre 33% e 58% nas situações ou cenários mais extremos, e os países mais afetados seriam – nesta ordem – Guatemala, Nicarágua, El Salvador e Honduras.

Finalmente, o relatório da CEPAL, demonstra que a explosiva combinação de fatores como a pobreza – que afeta cerca de 41 milhões de centroamericanos – e as deficientes condições de serviços de saúde e saneamento básico para a população, “fazem vulnerável a população às mudanças climáticas, uma vez que algumas doenças estão associadas à pobreza, como a malária e a dengue”, assim como os efeitos diretos e indiretos ocasionados por inundações, destruição de plantações e realocação de comunidades em condições precárias.

Há vários anos, os governos vêm articulando políticas e ações concretas de alcance regional, através do Sistema de Integração Centroamericana (SICA). Se por um lado são esforços louváveis e necessários, o certo é que praticamente todos os relatórios reconhecem que nossos países não estão fazendo o suficiente para enfrentar as mudanças climáticas: em parte, por razões políticas, e, em parte, por razões estruturais. Como bem disse o estudo da CEPAL, “o padrão geral de desenvolvimento e os problemas na gestão de risco criaram um circulo vicioso de empobrecimento humano e degradação ambiental, que se complicará ainda mais com o avanço das mudanças climáticas”. Eis o fundo complexo e problemático do assunto.

Como colocamos em outro momento, o que é necessário para quebrar esse círculo vicioso, o do maldesenvolvimento, é uma mudança radical na cultura ambiental e econômica. em nosso modo de conceber o “desenvolvimento” e nossa relação com o meio ambiente, regida durante séculos pela pretensão do domínio humano sobre a natureza, sua exploração irracional com ânsia de lucro, a subordinação das decisões ao cálculo do lucro, e a sistemática deslegitimação de propostas e alternativas ao modelo dominante por considerar que se opõem ao progresso.

Infelizmente, o tempo nos está ganhando a partida.

 

*Andrés Mora Ramírez é pesquisador do Instituto de Estudos Latino-americanos e do Centro de Investigação e Docência em Educacição, da Universidade Nacional da Costa Rica.

 

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