ANÁLISE: México e América Central frente ao imperialismo

Por Andrés Mora Ramírez*

Tradução por: Eugênio Xavier

Revisão por: Mariana Yante

 

Longe de ser um anacronismo, um esforço de intelectuais de esquerda ultrapassados ou uma peça de antiquário no museu das Ciências Sociais da América Latina, o imperialismo é um processo histórico em permanente atualização, intrinsecamente vinculado ao desenvolvimento do capitalismo, já não apenas como modo de produção, mas também como padrão civilizatório; e, portanto, expressa-se em todos os âmbitos da vida dos povos que o sofrem: esse amplo arco que vai da política à economia, e da cultura à ideologia.

A partir dessa perspectiva, México e América Central, como espaços geográficos e formações sociais que têm sido o objeto preferido dos apetites do “Norte violento e brutal” – nos dizeres de Jose Martí –, representam hoje casos dolorosos da presença do imperialismo estadosunidense – durante mais de um século – e do capitalismo neoliberal sobre a vida de milhões de pessoas e, em especial, sobre nossa maneira de pensar e pensar-nos como latino-americanos.

O ensaísta mexicano Gustavo Ogarrio propôs uma alegoria, a qual ele mesmo qualifica como escatológica, para explicar o impacto causado em seu país pela imposição da democracia formal – funcional aos de cima – como única via possível da democratização, e do livre mercado imperialista como horizonte unívoco das relações entre Estado e sociedade, situações problemáticas que também se manifestam com toda sua crueza nos países da América Central. Para Ogarrio, “depois de nos devorar política e culturalmente, o estômago do império nos devolve banhados nos sucos gástricos dos devaneios, da marginalização e da perseguição”. Antes de regurgitar-nos, o imperialismo estadunidense devora nossa soberania política, nossos recursos naturais e as centenas de milhares de imigrantes forçados ao exílio econômico por fome e desemprego, que possivelmente só podem alimentar suas ilusões com a promessa do american way of life e do acesso ao paraíso do consumo prometido pela cultura de massas.

Três estratégias combinadas, entrelaçadas umas com as outras, são chaves no desenvolvimento do fenômeno imperialista no século XXI: 1) a dominação comercial e produtiva imposta através de tratados de livre comércio assimétricos, que empobreceram milhões de agricultores mesoamericanos (somente no México, ao longo dos 20 anos de vigência do TLCAN, houve a perda de 1,9 milhões de empregos no setor agropecuário) e setores da classe média, acentuaram a perda de soberania alimentar e debilitaram os mercados internos e os sistemas produtivos nacionais; 2) a implementação de iniciativas de segurança regional para combater os carteis do narcotráfico e dos grupos de crime organizado – que se nutrem do capital estadunidense e produzem para o mercado do norte -, o que reposicionou os Estados Unidos militarmente na região, e lhe permitiu que se projetasse a outros espaços (América do Sul e Caribe) em função de seus interesses geopolíticos; e finalmente, 3) O estabelecimento de ententes com as elites governantes, que oferecem apoio político à mudança de seu alinhamento com Washington, e alianças para a prosperidade que apenas amplificam os mitos do neoliberalismo, porém contribuem pouco para as transformações estruturais de que os povos mexicanos e centroamericanos necessitam.

A violência física – não apenas política ou simbólica – com a qual o capitalismo neoliberal fortalece seu avanço na região, no sentido do que David Harvey chama de acumulação por desapossamento, está moldando algumas das novas características do projeto imperialista nos nossos países. Os desaparecimentos, massacres e assassinatos coletivos de homens, mulheres e grupos que protestam contra o enterguismo das elites governantes (os 43 estudantes de Ayotzinapa, México, por exemplo, ou a impunidade dos crimes contra ativistas sociais em Honduras); ou a repressão aos povos indigênas que resistem à exploração de suas terras pelo capital estrangeiro e ao deslocamento forçado pelo “desenvolvimento” (Santa Cruz Barillas na Guatemala, ou a comarca Ngöbe-Buglé no Panamá), são pontos de inflexão que marcam um acordo brutal a respeito das formas por meio das quais, mais adiante, será exercida a dominação imperialista.

Politicamente desconectados dos processos de integração, de recuperação da soberania e de reconfiguração dos equilíbrios de forças que vêm tendo lugar na América do Sul durante os últimos 15 anos, como demonstrou a recente Cúpula das Américas no Panamá – salvo os casos da Nicarágua e de El Salvador –, será possível ainda imaginar um futuro diferente, qualitativamente superior, para o México e para a América Central? Quais seriam os caminhos a seguir e quais as nossas alternativas? Que função cumprirão as organizações populares, os movimentos sociais, os partidos políticos progressistas, os intelectuais comprometidos com as mudanças necessárias e urgentes?

São perguntas as quais somente a práxis política transformadora, a unidade frente ao imperialismo e a ousadia para interpretar os problemas da realidade e construir soluções que apontem para o bem estar das maiorias podem responder. Por enquanto, cabe recordar aqui outra ideia de Ogarrio, que também escreveu de olho na outra realidade possível que sonhamos: “Presos à ilusão da servidão estratégica, que obtém benefícios mínimos, podemos recordar também a nossa condição de fantasmas do Terceiro Mundo e transformar essa recordação em uma fraca esperança: seguimos sendo parte da margem latinoamericana…”

Para esta margem devemos remar, a partir de todos os frontes possíveis.

 

*Andrés Mora Ramirez é Pesquisador do Instituto de Estudos Latinoamericanos e do Centro de Investigação e Docência em Educação da Universidade Nacional da Costa Rica.

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