Análise – Bacia do Caribe: uma área estratégica de interesse emergente (ou por que cada vez é mais pertinente estudar a América Central e o Caribe juntos)

Por Juan Agulló*

Tradução: Mariana Yante

Revisão: Juliana Vitorino

 
Estudar a América Central sem prestar atenção ao Caribe tem tão pouco sentido como estudar o Caribe sem analisar a América Central. Tradicionalmente, no entanto, isso tem sido uma constante na prática acadêmica. Em termos gerais, uma curiosa segmentação do enfoque ao estudar a referida área tem insistido em prevalecer: a América Central, de fato, sempre tendeu a ser trabalhada isoladamente, com exceção de Belize (um pequeno país que faz fronteira com o México), que constantemente vem sendo estudado com um distante e impreciso Caribe anglófono, que engloba inclusive as Guianas, fronteiriças com Brasil, também bastante alijadas do espaço insular.

Entretanto, ao Caribe, tão somente nos últimos tempos (e geralmente longe da América Latina), começou-se a tentar compreender como uma unidade geopolítica (as primeiras historiografias unitárias da região datam, apenas, de 1970). Neste caso, também, a cultura e, no fundo, as velhas influências e visões coloniais, vêm tendendo a prevalecer sobre o critério geográfico. Não é à toa que, até muito pouco tempo, fosse relativamente corriqueiro estudar o Caribe hispanoparlante (59% dos quase 40 milhões de habitantes que compõem a área) totalmente desarticulado do angloparlante (15,5%), do francófono (23,57%) e do neerlandófono (1,88%).

Atualmente, todavia, está fazendo mais sentido que nunca estudar a Bacia do Caribe como unidade geopolítica. Na prática, de fato, as coisas estão mudando muito rapidamente em uma região que, mais além de sua inalterada posição dependente, parece destinada a converter-se em um cluster estratégico global. No aludido processo, há um fenômeno central que, a despeito de sua transcendência, tem sido pouco estudado (e inclusive, observado): a crescente presença na área de alguns atores externos não tradicionais que não apenas ameaçam, com o deslocamento dos povos tradicionais, mas que parecem não distinguir entre América Central e o Caribe.

Entre esses atores externos não tradicionais, o primeiro a fazer-se notar nos últimos anos foi a Venezuela. A aposta de Caracas foi a PetroCaribe, uma iniciativa de integração energética que inclui  dezesseis países da área, caribenhos e centro-americanos. Atualmente, sua influência é decrescente, devido, entre outras coisas, à brusca queda do preço internacional do petróleo (de US$ 146 por barril, que chegou a alcançar em 2008, aos menos de US$50 atuais), mas sua transcendência geopolítica tem sido grande: basicamente tem servido para provar que a aterrissagem de atores externos não tradicionais na região representa uma tendência.

O caso da China reforça esse argumento. A partir de 2008, Pequim decidiu investir em uma área atrativa, mas delicada: a Bacia do Caribe – muitos de cujos países seguem reconhecendo Taiwan em detrimento da China – segue sendo um espaço sensível para os Estados Unidos (de fato, sua Terceira Fronteira). Talvez por isso a metade dos capitais chineses se orientou a erguer pontes (um estádio de cricket em Dominica, o Palácio do Governo de Granada, um complexo turístico nas Bahamas, a embaixada de Barbados na China etc.) e a outra metade, dois paraísos fiscais (Ilhas Cayman e Ilhas Virgens Britânicas), pensados como âncora para futuros investimentos na região.

No fundo, há projetos que prometem: na matriz de todos eles está a ampliação do Canal do Panamá. Na verdade, não se trata de um projeto chinês, mas da espoleta geopolítica que está detonando a transformação da área e, em dito marco, a sigilosa irrupção de Pequim. Hoje, os trabalhos estão sendo executados por um consórcio europeu (liderado pela espanhola Sacyr), mas a médio/longo prazo as maiores beneficiárias serão as economias asiáticas que, com a China como líder (segundo país por fluxo de carga através do Canal), conseguirão uma distribuição mais rápida (e, por conseguinte, mais competitiva) de suas mercadorias pela América e Europa.

Na verdade, essa é a razão pela qual Pequim tem tanto interesse em um espaço que, friamente analisado, tem um quarto dos habitantes do Brasil, uma superfície parecida com a do Chile e um PIB similar ao da Argentina. Sua importância, no entanto, é conferida por sua posição estratégica como ponte entre o Pacífico e o Caribe/Atlântico e entre o Caribe/América do Sul (com especial atenção à Bacia Amazônica) e Estados Unidos. Ademais, as condições para a produção in loco são promissoras, já que, ao longo dos últimos anos, a Bacia do Caribe vem se configurando como um enorme espaço de desregulação e exceção.

O ponto crucial da questão acima é a enorme gama de tratados e acordos de integração e de “livre comércio”, bilaterais e multilaterais, que quase todos os países da região têm entre si e com terceiros. No referido marco, há três referenciais básicos: o Sistema de Integração Centro-americana (SICA), a Comunidade do Caribe (Caricom) e o tratado – firmado em 2005 – entre a América Central e a República Dominicana de um lado, e os Estados Unidos do outro (DR-Cafta) que, até certo ponto, assenta as (inéditas) bases para o estabelecimento de uma relação institucionalizada entre dois grandes polos da Bacia (América Central e o Caribe).

Todo o exposto parece indicar que nos encontramos em plena articulação de uma enorme cadeia comercial e produtiva (com terminais na Ásia e nos Estados Unidos) que, para funcionar, necessitará de uma gama de infraestruturas modernas. Nesse sentido, a mencionada ampliação do Canal do Panamá representa a ponta do iceberg, e é aí onde a China parece disposta a desempenhar um papel-chave e, inclusive, antagônico: frente ao Panamá, um segundo canal interoceânico na Nicarágua, quiçá um terceiro, seco (rodoviário e ferroviário), na Colômbia, e frente aos portos de águas profundas de Mariel (Cuba) e Savannah (Estados Unidos), os de Kingston (Jamaica) e Suriname.

Caso fosse concretizado, tudo isso iluminaria uma Bacia do Caribe diferente da atual (mais integrada aos fluxos internacionais de formação de valor) que, para ser cabalmente compreendida, necessitaria ser estudada como uma realidade geopolítica dotada de sentido próprio, e não como uma simples soma de regiões dispersas, estruturadas a partir de velhos parâmetros estratégicos e/ou culturais (América Central, Caribe hispânico, Caribe angloparlante etc.). De fato, se as Ciências Sociais se interessam pelo estudo de estruturas e processos, neste caso deveriam considerar, para além das tradições e formalismos, transformações como a que vêm sendo descritas.

Apenas assim seria possível compreender melhor não apenas a série de mudanças que têm conduzido a essa situação e que, por sua vez, condicionarão as transformações vindouras (legislação off shore; fragmentação social e territorial; superposição de modelos, inclusive concorrentes, de integração; “internacionalização” de amplas áreas geográficas; combinação de modelos produtivos de alto e baixo valor agregado etc.), mas, sobretudo o caráter experimental de uma área configurada como exemplo das práticas sociais e produtivas neoliberais e das articulações entre blocos no contexto de uma Globalização que parece redefinir, instrumentalmente, as assimetrias.

Nesse marco, para o Brasil, possuir uma compreensão global da área é essencial. Em primeiro lugar, porque desde que, em 2005, o Caribe foi identificado por seu governo como umas das áreas de interesse prioritário para a expansão comercial, dita região tem sido cenário de algumas iniciativas (como a participação na missão da ONU para o Haiti ou na construção do já citado porto de águas profundas de Mariel, Cuba), concebidas como antecedente de uma diversificação geopolítica que Brasília pretende impulsionar como garantia de descentralização estratégica (na relação em direção ao Sul do País) e de inserção em um fluxo comercial chave em escala global.

Em segundo lugar, porque, na prática, o espaço em questão constitui um exemplo e, até certo ponto, um laboratório do tipo de realidades (muito distintas das sul-americanas) as quais o Brasil terá que enfrentar para competir em um mercado global mutante mas, sobretudo, “re-territorializador”. Nesse marco, qualquer análise da América Central e do Caribe que não considere os parâmetros de interconexão e dependência realmente existentes na região poderia conduzir a uma distorção que, mais além dos interesses práticos, não se coadunaria com os princípios que caberia esperar de alguns estudos na área que, além de serem sólidos, deverão ter sentido.

 

*Juan Agulló é Doutor em Sociologia (EHESS, París, Francia, 2003). Professor Adjunto da Universidade Federal da Integraçao Latino Americana. Membro da Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina: juan.agullo@unila.edu.br

 

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