ANÁLISE: O sonho (inconcluso) do retorno

Por Mercedes Seoane*

Tradução por: Martha Hirsch

Revisão por: Mariana Yante

 

 

Como falar do retorno ao país que se abandonou por força ou por diferentes tipos de dificuldades e buscas? A literatura do exílio e da migração, com a guinda do possível retorno, é ampla em nossas terras, e poderia já pensar-se em um corpus com  identidade própria e certas características comuns (Josefina Ludmer, entre outros, dedica algumas páginas de sua reflexão Aquí América Latina a estas narrativas).

Em sua última novela, El sueño del retorno,  Castellanos Moya, a quem regressamos nesta ocasião, faz sua contribuição ao corpus. Não é uma surpresa que regressemos a ele, na medida em que o narrador  hondurenho-salvadorenho parece ter se convertido no escritor queridinho do público e das editoras transoceânicas que apostam em certas produções literárias do istmo – com as limitações e consequências que discutimos em um texto anterior. Tampouco o tema do exílio e do retorno é casual, pois o texto de Moya é, sem dúvida, o que mais fortemente joga com elementos autobiográficos, e nele não é difícil reconhecer, para os leitores que sabem algo sobre a vida do autor, as referências ficcionalizadas à volta de Moya, o de carne e osso, a sua terra, no pós- guerra, e com o desejo de começar um empreendimento cultural com os bons presságios dos novos tempos.

El sueño del retorno apresenta outra sequência na saga dos Aragón, uma família ficcional com ares (auto)biográficos que aparece em vários textos anteriores; neste caso o foco está em Erasmo Aragón, o narrador-protagonista e provavelmente o personagem no qual se concentra nitidamente o jogo de identificação autobiográfica proposto pelo autor. A trama, narrada novamente por um personagem exacerbado, com os nervos sempre a ponto de traí-lo e o álcool onipresente como cura temporária, começa quando Erasmo decide consultar a um novo médico, preocupado com uma série de sintomas que o afligem há algum tempo, muito  provavelmente desde que resolveu deixar a capital mexicana, onde reside há muito tempo, em um exílio escolhido em seu momento para “evitar que meus compatriotas me destroçassem/delatassem”; ante a iminência da assinatura dos Acordos de Paz, o personagem decidiu voltar a El Salvador. Ao explicar suas dores, Erasmo se encontra com um  médico interessado não somente na sintomatologia, mas também nos infortúnios que o assolam, os temores presentes, a expectativa futura e também os traumas de passado. Muito rapidamente o médico ancião revela a seu alterado paciente um vasto conhecimento de práticas menos ortodoxas que culminam na proposta de realizar uma série de sessões de hipnose para “iluminar as partes mais escuras da minha minha psiqué”, disse-lhe o médico, segundo relata Erasmo. Assim, estabelecida a intriga, a narração centra-se nos preparativos de Erasmo para sua volta a El Salvador, nas últimas aventuras que vive no México e que sempre ameaçam destruir completamente seu sistema nervoso, nos problemas familiares, e obviamente, nas sessões com Don Chente, o velho profissional da medicina que resulta tão enigmático como suas mesmas técnicas de cura e o resultado obtido, de que o leitor saberá tanto quanto o paciente, ou seja, nada.

A última novela de Moya permite a quem não o haja lido ainda aceder a uma infinidade dos leit motivs favoritos do autor: o relato de um contexto político e social específico tal como pode ser visto por um personagem torturado, desafogado, cético e sempre à beira de uma crise paranoica, a violência e o medo permanentes, e a relação de amor-ódio com El Salvador; neste caso se acrescentará também informação complementar se o leitor tiver lido novelas anteriores de Moya e reconhece as pistas desse tipo de rede intertextual que constrói com outros de seus textos anteriores através da história da família Aragón.  A promessa do retorno acrescenta uma tensão especial à trama, e certamente também a inclusão na intriga do médico alternativo e das sessões de hipnose; acompanhados da sutileza e do humor cínico que caracterizam todos os textos de Moya, o fato de que o leitor somente possa conhecer o mesmo que o narrador-protagonista o deixa tão ignorante do resultado como ao próprio protagonista. Na reticência da informação que em princípio sustenta a trama e gera uma tensão original que a impulsiona, e enquanto esperamos saber que obscuros segredos esconde a mente conturbada de Erasmo, a narração nos leva por outros caminhos, truncando as expectativas leitoras mais imediatas para submergir-se (quiçá como em nenhuma outra novela de Moya) em episódios concretos da guerra que está por terminar, nas vidas dos que dela participaram e nela morreram ou lograram salvar-se escapando, e nas opções vitais que naquele momento se apresentavam aos que se sentiam comprometidos com os acontecimentos de seu país.

Se re-presenta aqui, definitivamente, El Salvador nos seus tempos mais obscuros, e é esta imagem que predomina; não saberemos que traumas oculta o narrador-protagonista, nem que intenções tem o médico tratante, e nem sequer conheceremos o resultado do retorno anunciado, uma vez que nesse ponto a novela se conclui.

Resulta difícil afirmar, junto com algumas vozes da crítica literária atual, que os textos de Moya propõem personagens que se retiram a um mundo interno, envolvidos num solipsismo supostamente próprio da atitude de pós-guerra. O que efetivamente ocorre é que o relato dos acontecimentos e traumas sócio-históricos está posto na boca de personagens ex–cêntricos (em ambos os sentidos do termo), seja por seus traços psíquicos, sua tendência ao cinismo ou sua posição na sociedade (pensemos na dama da alta sociedade em La diabla en el espejo, ou no assassino formado na guerra de El arma en el hombre), mas é sempre a História salvadorenha que nos agita em seus ventos desenfreados, diante dos quais a duras penas podem encontrar reparo.

El sueño del retorno não narra o retorno, e nos oculta o que quiçá lembre o protagonista em seus delírios hipnóticos, após capturar nossa curiosidade, mas “conta” muitos outros fatos com o humor e a precisão característicos dos textos de Horacio Castellanos Moya.

 

 

* Mercedes Seoane é nascida em Buenos Aires, morou no México, na Turquia e, atualmente, mora em Berlim. Graduada em Letras pela Universidad de Buenos Aires, mestra em Estudos Latino-americanos pela Universidad Nacional Autónoma de México e doutorando do Programa de Estudos Sociais da América Latina do Centro de Estudos Avanzados, Universidad de Córdoba.

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