Análise: Juventude de risco – o estigma dos jovens em El Salvador

por *Amaral Palevi Gómez Arevalo

 Nos últimos anos, os jovens em El Salvador são classificados a partir do viés do risco. Esta tem sido uma forma de mostrar a infância a partir de um pensamento hegemônico adultocêntrico (Fletes e Rizzini, 2004: 37). As políticas públicas e a atenção às dificuldades enfrentadas por esse segmento da sociedade estão impregnadas desta ideia do “risco”, tanto para eles quanto para a sociedade em geral. Por exemplo, as ações governamentais são planejadas para controlar suas ações e seus atos, partindo de ideias preconcebidas sobre um tipo de juventude ideal da modernidade europeia: a postergação da idade do matrimonio e da procriação, oportunidades de estudo, tempo de lazer socialmente legitimado, obediente, adaptável, com capacidade de progresso, alinho, respeito, ideias inovadoras, ambições, responsabilidade, confiança e visão de futuro. Que acontece quando estes ideais preconcebidos da juventude da modernidade não correspondem à realidade social?  Uma das primeiras consequências é uma visão equivocada da juventude como criminosos. Promove-se a criminalização dos jovens, por considerar que eles estão assumindo atitudes definidas como perigosas e alarmantes pelos adultos (ONU, 2011: 13).

O enfoque do risco “[…] es producto de una sociedad patógena que descarga y explica su culpa en los individuos que la componen; se convierte así en una sociedad autoritaria, intolerante, necesariamente excluyente, ciega e hipócrita” (Fletes e Rizzini, 2004: 44) que culpabiliza aqueles que menos podem se defender destes ataques. Neste caso, falamos sobre os jovens de assentamentos precários urbanos. Esta patogenia em El Salvador está relacionada aos seguintes fatores:

  1. A utilização da violência para a resolução dos conflitos;
  2. A falta de processos profundos de reconciliação depois do conflito armado interno;
  3. A saúde mental da população em geral esta comprometida depois de 12 anos de guerra; e
  4. A cultura machista proporciona elementos catalizadores de diversos atos de violência, principalmente contra as mulheres e outros homens.

Outro fator importante para a criação de atos violentos é o estigma. Neste caso particular, falamos de um grupo social específico: homens jovens, de baixos recursos econômicos, com poucos anos de estudo, empregos informais, não-brancos, de unidades habitacionais populares, de assentamentos urbanos precários, de comunidades marginais, entre as características principais, designando-os como delinquentes. Este estigma não possui fundamentos, mas é parte da cultura da violência construída em El Salvador. Pode-se traduzir esta construção ideológica como a desconfiança em relação ao jovem, a qual se cria a partir de uma visão adultocêntrica sobre a juventude em situação de risco. Esta desconfiança possibilita que jovens que não estão envolvidos em atos de violência armada organizada, cheguem a cometer tais atos por falta de espaços de integração social dentro e fora de seus contextos de vida habituais.

O peso da concepção sobre jovens em risco e/ou potencialmente em risco para os moradores de assentamentos urbanos precários e marginais é tão grande que ao ver negadas suas possibilidades de acesso a outros espaços de ascensão social, por conta desse estigma, muitos deles retomam o próprio estigma como roteiro (ONU, 2011: 10) de uma profecia anunciada pelos meios de comunicação, escola, políticos, vizinhos, suas famílias, amigos, a igreja… assumindo como uma verdade. A identidade desses jovens se estrutura a partir desse falso e único ideal disponível para aqueles que moram nestas zonas de exclusão social.

O processo de exclusão social está composto pela precariedade socioeconômica, em que as comunidades carecem de serviços básicos e quando estes existem são de má qualidade, falta de oportunidades para a formação técnica ou profissional, expulsão e evasão escolar que conduz ao desemprego ou subemprego. Estas características formam uma aliança negativa que promove a transmissão geracional da exclusão social para parte das gerações mais jovens.

O estigma não se origina nos próprios jovens, dado que como sociedade “fácilmente asumimos que ser joven es ser “culpable”, como si la gente joven estuviera esperando ser culpada por cualquier cosa que vaya mal en sus vida” (Jeleniewsk, 2003: 127). O estigma se interioriza nos jovens. Não são poucas as vezes que o estigma é utilizado como meio de diferenciação individual e coletivo em diversos contextos geográficos. Desde o vértice menos violento, os jovens excluem per se a outros jovens pelo simples fato de morar em uma zona especifica. Por exemplo, ao dizer que moram nos municípios de Soyapango, Ilopango ou Apopa, começa-se a formar uma ideia de jovem de risco e delinquente. Mas, se continuamos  indagando e eles começam a dizer alguns nomes de comunidades ou zonas habitacionais, o que vemos nestes jovens é a corporificação do discurso do medo e da violência que a cultura salvadorenha difunde por todas suas estruturas de formação do pensamento e ideologia.

Devemos compreender que “la imagen de lo juvenil que circula por la sociedad no siempre es definida por los propios jóvenes. Los jóvenes son reconocidos por su energía y su entusiasmo pero se invisibiliza fácilmente en lo negativo y se brinda importancia en virtud de problemas que buscan corregirse” (OIJ, 2008: 13), a partir do paradigma do risco, do adultocentrismo e do discurso da violência juvenil e, em alguns casos como o Plan Mano Dura e Súper Mano Dura, se converteram em políticas públicas que restringiram direitos fundamentais dos jovens.

O estigma pode conduzir à morte quando jovens de diferentes lugares de moradia, por exemplo, os setores da Tutunichapa, as Iberías ou 10 de Otubro San Salvador, atuam em um grupo delinquente distinto ao dos grupos que atuam em sua zona. Quando este fato acontece, qualquer jovem ou pessoa que more na comunidade contrária converte-se em inimigo. Esta construção do inimigo no outro, produz atos de violência e de morte entre os mesmos jovens que se consideram rivais: a morte jurada, impossibilitando canais de comunicação entre pares que se encontram vivendo fatos e situações de marginalidade e exclusão social por parte da sociedade em geral.

Ao estigmatizar os jovens, se promovem processos de criminalização que negam seus direitos. Quando os jovens não têm alternativas para obter uma vida de qualidade, estes optam por transformar os mandatos que a sociedade lhes têm imposto em realidade: ingressar em estruturas de delinquências denominadas “maras” como um processo máximo de exclusão social promovida a partir da própria sociedade que lhes nega a permanência na escola, oportunidades de emprego dignos, saúde de qualidade, e sobretudo sonhos e ideais de quer ser uma pessoa melhor.

* Amaral Palevi Gómez Arevalo é doocente de Ensino Superior, Doutor em Estudos Internacionais em Paz, Conflitos e Desenvolvimento (Universitat Jaume I), Graduado em Ciências da Educação (Universidad de El Salvador). Gestor de projetos de desenvolvimento comunitário com jovens, homens e atenção à população LGBT. Promotor de cultura de paz, a partir de meios audiovisuais.

REFERÊNCIAS

FLETES, R.; RIZZINI, I. Río-Guadalajara: paralelismos en el proceso de marginación y niños de la calle. In: RIZZINI, I. et al. (Org.). Niños y adolescentes creciendo en contextos de pobreza, marginalidad y violencia en América Latina. Rio de Janeiro: CIESPI, 2004.  p. 35-65.

JELENIEWSKI, V. Cuerpos, deseos, placer y amor. In: OLAVARRÍA, J. Varones adolescentes: género, identidades y sexualidades en América Latina. Santiago de Chile: Salesianos, 2003. p. 127-139.

ORGANIZACIÓN DE LAS NACIONES UNIDAS. Guía para la prevención con jóvenes: hacia políticas de cohesión social y seguridad ciudadana. Santiago de Chile: ONU, 2011.

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