ANÁLISE: Os Pipiles de El Salvador

Por Amaral Palevi Gómez Arévalo*

Revisado por: Mariana Yante

 

Nesta oportunidade, quero dedicar o presente espaço de reflexão a uma temática tanto conhecida, como desconhecida, em El Salvador: os Pipiles. Os Pipiles eram o grupo cultural majoritário no momento da chegada dos invasores espanhóis no atual território de El Salvador. Essa informação possivelmente é a que a maioria de salvadorenhos tem. Os Pipiles são uma temática sobre a qual todos têm alguma referência, mas pouca profundidade. Perguntas como: de onde vêm os Pipiles? Qual é sua importância? Qual era sua organização? Que língua falavam? Qual é sua história? são algumas das que orientarão minha reflexão.

Aproximadamente no século VIII d. C., houve uma série de migrações no interior da área mesoamericana. A hipótese tradicionalmente utilizada para justificar estas migrações foi a procura de novos territórios para os desabrigados – produto do colapso do Estado Tolteca, no centro do atual México, representado pela queda de sua capital Tula. Entre estes grupos Toltecas que migraram para terras do Sul, encontravam-se os Pipiles. Este fato pode ser  comprovado pelo uso da língua Náhuatl, a qual, em vez de empregar o vocábulo “tl” que utilizavam os Azteca no México, utilizava o vocábulo “t”, que tem uma relação direta com essa diáspora Tolteca clássica. Por tal razão, os Pipiles falam Náhuat em vez de Náhuatl. No ano 1.000, tem-se conhecimento de assentamentos Pipiles em El Salvador.

O nome de Pipiles, seu significado, tem duas variantes. Tlaxcatlecas que acompanhavam os invasores espanhóis relataram que os moradores que encontraram no atual território de El Salvador falavam como crianças, por isso os nomearam de “pipiles”. Aliás, existe outra versão, a qual retoma as migrações dos Toltecas, no sentido de peregrinação para sítios sagrados onde nasceu a cultura Tolteca. Estas peregrinações foram conduzidas por nobres e grandes senhores de linhagens reais, entre os quais se destaca o mítico Tolpilzin Axitl, que dirigiu a primeira grande peregrinação/migração Tolteca para os territórios de El Salvador.  Ambas as versões se sustentam devido ao fato de que a raiz “pil”, tanto no Náhuatl como no Náhuat, significa “pequeno” e “filho”, mas também “nobre” ou “realeza”. Esta discussão talvez se resolva no futuro.

A organização política Pipil, à chegada dos espanhóis, estava estruturada por uma confederação de cidades que agrupavam quatro identidades indígenas náhuat: os Masahuat, os Nonualcos, os Izalcos e os Cuscatlecos.  A etimologia de Masahuat significa “os que cuidam veados” ou “os que possuem veados”. Eles se assentavam nos atuais territórios dos departamentos de La Paz, Santa Ana e Sonsonate. No que tange aos Nonualcos, sua etimologia pode ser traduzida como o “lugar dos silenciosos”. Eles se caracterizavam por sua beligerância e belicosidade, e assentaram-se no atual território de La Paz. Os Izalcos se assentaram no atual território de Sonsonate. Dominavam a produção de cacau da região. Seu nome significa “lugar das areias pretas”. Por sua vez, os Cuscatlecos se assentaram na região central do País. Sua etimologia deriva da palavra “Cushcatan”, que quer dizer “lugar de joias e medalhas”. A todos eles lhes unia o uso do Náhuat como língua, e formavam o Reino de Cushcatan, o qual, no momento das invasões espanholas, se encontrava nos inícios da constituição de uma estrutura estatal. Cushcatan, sua capital, estava localizada no atual município de Antiguo Cuscatlán. Note-se o uso do vocábulo “tl” no nome Cuscatlán, que segue a norma do Náhuatl e não o nome original em Náhuat – fato que mostra a espanholizacão e mexicanização dos vocábulos Náhuat em El Salvador.

Os Cuscatlecos foram abatidos nos primeiros momentos da invasão espanhola. No entanto, ofereceram uma férrea resistência e lograram conter as arremetidas espanholas, em que pesem todas as desvantagens técnicas e militares que possuíam. Sua célebre resistência é lembrada pelo fato de haverem abandonado todos os seus domínios e declararem guerra a partir dos morros pertos de sua capital, nos quais os espanhóis tinham dificuldade de mobilizar seus cavalos e armamento mais pesado. Não obstante, logo depois de uma década de lutas, os Pipiles foram derrotados.

Os grupos dos Nonualcos e de Izalcos lograram resistir de melhor forma pelos trezentos anos de colonização espanhola. Mas, em 1832, uma década depois da independência da Espanha, os Nonualcos foram arrasados, sob a justificativa de deter a rebelião indígena proclamada por Anastácio Aquino. Esta rebelião se origina pelas falsas promessas que os líderes da independência ofereceram aos indígenas para acompanhar as lutas contra o governo colonial. As condições do regime colonial mudaram para os líderes da independência e para os brancos em geral; entretanto, para os indígenas, somente houve uma troca de pessoas no governo, já que as condições de vida deles não se modificaram.

Esta situação foi que motivou o levante do líder indígena Anastácio Aquino, o qual se proclama “Rei dos Nonualcos”, com a coroa da Virgem do Pilar em San Vicente. Este movimento indígena foi controlado pelas forças do governo federal desse momento, não se conhecendo o número de mortos desta rebelião.

Um século depois, os Izalcos promovem uma das maiores insurreições indígenas da América Latina. Dadas as condições de miséria em que viviam os indígenas no ocidente de El Salvador, logo depois que suas terras comunais foram expropriadas para o cultivo massivo do café, estes só tinham como trabalho a colheita do café. Em 1929, ocorreu a crise econômica dos Estados Unidos, que afetou diretamente a compra do café produzido em El Salvador, já que seu principal mercado de venda eram os Estados Unidos. Sem comprador do café, as colheitas de 1930 e 1931 não se realizaram. Com tal fato, milhares de indígenas sucumbiram à miséria. Assim, no início de 1932, se realiza uma rebelião que abarca todos os departamentos do ocidente de El Salvador. Esta rebelião foi controlada pelo governo utilizando os militares. Suas ações dão como saldo final a cifra historicamente reconhecida de 30.000 pessoas mortas, o que se tem denominado como “La Matanza del 32”.

La Matanza obrigou os indígenas a procurarem estratégias para sobreviver. A grande estratégia utilizada foi eliminar qualquer marca social ou cultural que os identificavam como indígenas. O primeiro distintivo cultural a cair em desuso foi a língua Náhuat, e, com tal fato, constrói-se a ideia de que os indígenas em El Salvador foram exterminados. Assim, converteu-se o mestiço católico que fala espanhol no padrão universal para definir ao sujeito salvadorenho.

Nesse processo de discutir “o quem somos?”, o linguista Lara-Martínez (2014), analisa as três formas pelas quais a política cultural oficial mestiça tem tentado definir o indígena depois do massacre de 1932. Em primeiro ponto, e contemporâneo dos acontecimentos de 1932, o ícone da literatura salvadorenha Salarrué nos fala dessa concepção do indígena como um reduto do Atlante. Logo depois, estrutura-se uma representação do indígena, neste caso do corpo feminino indígena, por meio da erotização e da naturalização de sua identidade na obra plástica de Mejía Vides.  A terceira, a esquerda política retomando os fatos de 1832 e 1932, constrói a imagem do indígena como revolucionário para coadjuvar a sua causa.

Atualmente, a língua dos Pipiles está em perigo de extinção. São poucos os falantes de Náhuat. Existe uma tentativa de resguardar esta língua.

Adentrar-se na história de El Salvador sempre é uma experiência arqueológica inacabada, mas sirva o anterior para continuar nesse processo de procura para responder: Quem somos? –   pergunta que, nestes tempos de globalização, nos interpela a cada momento para esboçar um campo de identidade ao qual nos aferrarmos.

 

 

***Referências

LARA-MARTÍNEZ, Rafael. Mitos en la lengua materna de los Pipiles de Izalco en El Salvador. Soyapango: Editorial Universidad Don Bosco, 2014.

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